DDf – Volume 4, Capítulo 2.6 – Tu Vens a Mim

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Pouco depois, a intuição desta jovem se provou exata. Eles apareceram como fantasmas montando em cavalos de guerra, cortando a chuva em seu caminho, e atacaram a ala esquerda e a direita dos nossos aliados. A cavalaria avançando com seus mantos púrpuras era, com toda certeza, o Exército Imperial de Habsburgo. As forças da Aliança Crescente nas duas alas não esperavam que o exército inimigo ainda teria unidades de cavalaria, consequentemente elas foram atacadas pela retaguarda sem conseguir expressar muita resistência.

“Ah.”

A Capitã arfou surpresa. Assim ocorreu uma cena em que diversos ‘Ah’s escapavam involuntariamente ao nosso redor. As alas laterais da Aliança Crescente, que haviam formado uma perfeita formação de aniquilação com cerco, haviam colapsado. Os soldados inimigos, que estavam apenas aguardando para serem massacrados dentro daquele cerco, comemoraram os reforços que apareceram abruptamente, então se forçaram a usar cada gota de força que ainda havia em seus corpos.

As unidades das forças inimigas e das aliadas se misturaram caoticamente. Naturalmente, era difícil reestabelecer uma linha de comando após ela ser desfeita. E em uma situação dessas, com a chuva forte atrapalhando a comunicação, seria mesmo possível restabelecê-la? Apesar da Barbatos e da Paimon tentarem desesperadamente reconstruir a formação do cerco, infelizmente, elas já haviam perdido a oportunidade perfeita. A maioria dos soldados estavam escapando vivos. Em meio a chuva, junto a neblina.

“Hmm.”

Com os olhos sem emoções, esta jovem observou eles correndo para longe. A presente melodia da fuga das forças inimigas, cujo volume diminuía paulatinamente, era bela e lastimável. A Capitã Humbaba olhou inexpressiva para o rosto desta jovem enquanto ouvia a sinfonia.

“…Vossa Excelência General Representante.”

“Esta jovem senhorita pede desculpas, Capitã. Pois este presente momento é perfeito. Por favor, mantenha a sua boca calada por exatos dois minutos. Se você não ficar em silêncio, é possível que esta jovem senhorita a execute.”

“…”

Dois minutos se passaram.

Esta senhorita estava satisfeita.

“Tudo bem. Sobre o que você está curiosa desta vez?”

“Bem. Vossa Excelência General Representante havia afirmado isto antes da batalha de hoje. Que nosso exército não venceria, mas também não perderia. Que iríamos apenas espalhar o caos pelo campo de batalha. Ao dizer isso, você queria dizer que…”

Uhum. Está correta.”

Esta jovem gesticulou concordando.

“Além de que organizar a batalha de aniquilação com cerco foi uma conquista digna de méritos desta jovem senhorita, foram os erros e descuidos da Barbatos e da Paimon que arruinaram esta oportunidade. Esta senhorita não obteve a vitória, porém também não experienciou uma derrota.”

“…”

“As duas, Barbatos e Paimon, devem estar envergonhadas. Barbatos, que havia dito que esta jovem senhorita havia cometido o crime de Alta Traição e tentado puni-la, deve estar especialmente envergonhada. Se ela tentar punir Sua Senhoria em um julgamento militar agora, então a honra dela será jogada em um poço de fezes infinito. Afinal, ela não conseguirá evitar as acusações da desonra de tentar redirecionar a culpa da derrota de hoje para outro Lorde Demônio.

“······uh. Espere um segundo, Vossa Excelência. Então, mesmo estando completamente ciente de que o cerco da Aliança Crescente iria fracassar, Vossa Excelência ainda assim nos manteve aqui, fazendo nada, no centro do exército?”

“Descreveu com perfeição.”

“Isso é um pouco preocupante. Não estou dizendo isto por ter um apreço em especial por nossos aliados, mas não seria melhor ter avançado e transformado esta derrota em uma vitória?”

Confusa, esta jovem a questionou.

“E por que faria isso?”

“É óbvio. Esta guerra já está acontecendo mesmo, então já que estamos nela, é mais prazeroso quando nossas forças vencem.”

Esta senhorita ficou ainda mais confusa. Era difícil compreender o que exatamente a Capitã estava tentando dizer. Esta jovem senhorita, após formular uma retórica repleta de verdades óbvias e recheada de senso comum, falou:

“Capitã. O que te leva a pensar que a Barbatos e a Paimon são aliadas desta jovem?”

“Como disse?”

“Barbatos tentou incriminar e eliminar Sua Senhoria. Da mesma forma, Paimon tentou utilizá-lo como uma mera ferramenta política. Portanto, é mais do que claro que essas duas Lordes Demônios são inimigas desta senhorita. Mesmo que não façamos nada, a Princesa Imperial está disposta a causar uma derrota para aquelas duas, então por qual motivo esta jovem deveria intervir desnecessariamente? Assim, estava manipulando um grupo para controlar outro grupo, de forma que, se a Princesa Imperial quisesse quebrar a nossa formação, então ela não teria outra opção além de atravessar as duas alas do cerco, ao invés da unidade central desta jovem senhorita, que estava bem distante. Então esta jovem pôde apenas assistir, com toda tranquilidade, os inimigos matarem uns aos outros.”

Não havia ninguém que poderia criticar esta jovem por permanecer passiva enquanto a formação do cerco se desfazia. Afinal, foi esta senhorita que decidiu ser a vanguarda da Aliança Crescente, ficando à frente do exército desde o primeiro ato da batalha.

Esta jovem avançou como a ponta da lança, colocou a maioria da cavalaria dos Cruzados em uma situação terrível, além disso, também havia contribuído decisivamente para permitir a formação do cerco de aniquilação. De todos os pontos de vista possíveis, a pessoa que havia realizado as maiores conquistas para a Aliança Crescente era esta jovem senhorita. Se alguém desejasse criticá-la, então estava mais do que livre para tentar.

“Além do mais.”

Esta jovem continuou.

“Seria entediante vencer muito rápido. De toda forma, já está certo que dentre os inimigos e esta jovem senhorita, o lado que conquistará a vitória será o desta jovem. Porém, seria um desperdício se não devorarmos eles pouco a pouco, não acha?”

“…”

Mais uma vez, o rosto da Capitã da Guarda Real, Humbaba, ficou inexpressivo. Enquanto ajustava seu chapéu cônico, que estava completamente encharcado pela chuva, ela murmurou para si.

“… Agora eu tenho certeza absoluta. Tem um bando de lunáticas em torno do Nosso Mestre. A Senhorita Lápis e até mesmo a Sua Excelência General Representante, todas elas estão muito longe de serem normais. Parece que eu sou a única pessoa com sanidade perto do Mestre. É, só eu mesma posso cuidar dele.”

“Hããã?”

“Oiiii?”

O tempo no campo de batalha continuou a correr enquanto discutíamos.

Os exércitos das duas, Paimon e Barbatos, restauraram as suas formações colapsadas. Entretanto, já estava tarde demais para elas perseguirem os inimigos. O tempo passado jamais retorna. Da mesma forma, as oportunidades perdidas no campo de batalha, jamais voltarão para suas mãos.

Toda guerra era um conflito que fluía ininterruptamente, sem nunca permitir voltar para um ponto perdido. Não era estranho que diversas oportunidades eram perdidas diariamente. Ao contrário, isso era algo muito comum. Assim como as correntezas do oceano, o tempo também flui de forma que parece ser aleatório. Portanto, para alguém vivendo o cotidiano, era como um marinheiro novato tentando atravessar sozinho este mar sem conhecer suas correntes, um esforço em que eles acabam sempre se desviando no decorrer do seu trajeto, nunca tomando a melhor rota. Indivíduos assim vão se perdendo cada vez mais, até que finalmente, acabam por ser engolidos pelas ondas do tempo.

Por outro lado, o tempo em um campo de batalha não podia ser tratado de forma tão leviana. As pessoas que se deixavam ser carregadas pelas correntezas na guerra não eram perdoadas. A movimentação dos soldados inimigos, a direção em que as bandeiras tremulavam ao vento, os odores, as fragrâncias, e os pulsares dos corações que batiam pelo campo. Era preciso examinar toda e qualquer informação possível para dominar perfeitamente o fluxo do tempo. Uma pessoa capaz de controlar o fluxo do tempo também comanda o campo de batalha. Hoje, ambas, Barbatos e Paimon se perderam em meio a estas águas. A chance de conquistar a vitória jamais retornará para elas.

Tsc.

A Capitã Humbaba estalou a língua.

“Isto é um pouco triste. No fim de tudo, não quer dizer que elas foram só usadas por nós?”

“Esta guerra pertence a Sua Senhoria, e este campo de batalha pertence a esta jovem senhorita. É mais do que natural que tenham chegado a este resultado hoje, já que atacaram esta jovem e aprisionaram Sua Senhoria, mesmo não sabendo quem eram os verdadeiros donos. Espero que elas tenham percebido os seus devidos lugares.”

“Realmente, nosso Mestre a sua General são as únicas pessoas no mundo capazes de dizer para as Lordes Demônios de rank 8 e 9 que elas deveriam saber os locais a que pertencem…”

Naquele momento. Uma porção da força militar inimiga, que pensávamos que havia recuado por completo, apareceu em meio a chuva pesada e a névoa densa. Completamente molhados, havia apenas um pequeno número de inimigos. Esta jovem senhorita os encarou fixamente, julgando se talvez eles pretendiam executar um ataque surpresa, mas não parecia ser o caso. Os inimigos se mantiveram parados, como estátuas.

“…”

Não, isso não era mesmo um ataque surpresa.

Esta jovem bateu de leve na costela do seu cavalo negro e foi à frente. Apesar do escarcéu criado pela Capitã da Guarda Real, que estava falando em pânico atrás de mim, esta jovem apenas a ignorou. Enquanto era atingida pela chuva, esta jovem senhorita se dirigiu ao local onde os inimigos aguardavam.

Naquele momento, uma pessoa dentre os soldados humanos se destacou e veio à frente montada em um cavalo branco, seguindo a mesma velocidade desta jovem. A oposição era negra, e ao mesmo tempo, também era branca. Mesmo com o clima atual, em que nuvens escuras cobriam o céu, o cabelo prateado dela brilhava, mostrando sua cor vividamente. As gotas de chuva pareciam estar abrindo um caminho para ela.

Antes que esta senhorita conseguisse vê-la bem, já sabia exatamente quem era.

Elizabeth Atanaxia Evatriae von Habsburg.

A única pessoa que Sua Senhoria havia reconhecido como uma inimiga formidável. Esta jovem senhorita foi treinada por Sua Senhoria única e exclusivamente para tomar a vida desta pessoa.

Ela e esta jovem se aproximaram. Esta senhorita e a Princesa se observaram, com os rostos sem emoções, em cima de seus respectivos cavalos, preto e branco.

A sua mente aparentava estar sendo percorrida por inúmeros pensamentos. Seu rosto não transparecia nenhuma emoção, mas seus olhos continham um plano tramado minunciosamente. Por outro lado, nada de especial estava ocupando a mente desta jovem. Encontrar pessoas é algo muito comum. Que bom que esta jovem pôde vê-la com seus próprios olhos, esta era a única coisa que estava pensando durante este evento.

 

“…”

“…”

A chuva caía.

Esta senhorita apreciava a chuva.

Sempre que chovia, o som das gotas caindo lavava os incômodos que permeavam o mundo. No passado, o respingar da chuva no rosto desta jovem senhorita causava um breve alívio, pois dava a sensação que existia um mundo fora daquele local.

Em certa época, esta jovem pensava que as mais diversas coisas do mundo estavam atormentando-a, e em dados momentos, sua mente estava sobrepujada por tais tormentos. Mas o som da chuva varria para longe tudo isto. Como as gotas de chuva estavam ocupadas varrendo tudo que existia no mundo, pareciam não ter força suficiente para obstruir esta senhorita. Sempre que a chuva caía, esta jovem pensava ser a coisa que a chuva sentia ter a menor necessidade de varrer. Esta jovem senhorita suspirou refletindo sobre a indiferença da chuva.

Se ao menos ela desaparecesse sem deixar rastros.

Se ao menos todos os traços da existência do corpo dela fossem varridos. Se ao menos até mesmo os vestígios do seu desaparecimento fossem apagados.

“Você.”

Os lábios da Princesa se abriram. Uma gota escorreu pela lateral dos seus lábios, traçando o caminho para seu queixo. Era muito provável que Sua Senhoria gostaria de beijar lábios como estes.

“Vejo que você está morta.”

“…”

“Esta não é face de alguém que está viva, e muito menos os olhos de alguém cujo coração bate. Dantalian nomeou uma marionete como sua General? Ou será que ele não desejava adotar uma boneca, mas sim uma defunta, e cuidar dela? Mas que homem problemático. Toda e qualquer ação que ele toma, sem exceção, me são obstruções.”

“…”

“Vejo que você não aprecia o ato da fala. Já que está me encarando em silêncio, não consigo enxergar um meio para dialogarmos. Sendo sincera, até me questiono se está mesmo olhando para mim agora. Que espécie de pensamentos ocupam essa sua cabecinha, para você estar assim tão bem comportada?”

Esta jovem senhorita olhou para a chuva caindo.

Então falou:

“O pensamento que percorre a mente desta jovem senhorita é o de querer te matar.”

O rosto da Princesa adotou uma expressão de incômodo e ela se calou. Então, serrilhou seus olhos e balançou a cabeça.

“Peço desculpas. Você não pode me matar. Não só você não possui competência suficiente para tal, mas, ainda que tivesse habilidade suficiente para tal feito, lutar contra mim seria uma ação que contrariaria as ordens de Dantalian. E já que você é uma marionete, não o desobedecerá. Não estou correta?”

“…”

“Eu desejava ver de perto a garota que aquele homem nomeou para ser a face do seu exército. Vejo que o Dantalian é orgulhoso. Vejo que aquele homem, não importa o custo, tenta carregar pesos que ele não aguenta carregar, e adota coisas que ele não precisava adotar. Como seria possível salvar a vida de uma criança que há muito já está morta, e da mesma forma, como matar essa criança que já morreu? O Dantalian está querendo voltar no tempo? Ele acha que o tempo irá inverter o seu fluxo por um mero desejo dele?”

A Princesa olhou para o céu chuvoso.

“Passe uma mensagem para o seu Senhor, se possível. Diga que: depois de ver pessoalmente a sua boneca, eu, Elizabeth von Habsburg, a achei relativamente bonita.

Ela deve ter terminado de falar tudo o que queria, já que virou o seu cavalo e se dirigiu para o exército dos Cruzados. Pouco depois, a Princesa desapareceu em meio a névoa densa, e os seus soldados desapareceram como sombras junto a ela. Por um bom tempo esta jovem senhorita assistiu as sombras mergulharem na névoa.

Uma única convicção se formou na mente desta jovem.

Da próxima vez que nos encontrarmos, esta jovem irá matá-la.

 

 

 

 

Foi assim que a batalha deste dia se concluiu.

Ninguém foi capaz de conquistar a vitória e ninguém foi derrotado. Todavia, um herói apareceu em meio a Aliança Crescente, assim como outro herói surgiu entre os Cruzados.

Esta jovem senhorita, Laura de Farnese.

E a Princesa Imperial, Elizabeth von Habsburg.

 


Tradutor: Yuere   |   Revisor: Delongas


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