AVN – Capítulo 56 – A frágil primavera marciana [quadro II]!


Correriam, Anne e Lunar, ligeiras através de tantos corredores e escritórios até o elevador de Los Andes.

— Como você pode ser tão forte? — Olharia para Anne, tinha um sentimento estranho, tentando assimilar o que acontecia realmente enquanto aquela amassava o botão de subir repetidamente.

— Não vai funcionar! Merda, vamos pelas escadas. — Correriam mais um bocado, até uma esquina onde três homens armados apareceriam do nada. — Merda!

Jogaria Lunar para dentro de uma sala, enquanto se escondia por detrás de um vaso de plantas.

— Que porra tá acontecendo?! — Lunar se chocaria contra uma mesa de escritório. Sua cabeça latejava. — Mas que porra tá acontecendo! — Meio cambaleante, tentava se levantar, indo em direção à porta, pausando ao som de rajadas de tiro ecoando pelo espaço. — Acho que entendo. — Se encolhia num canto, sem tremer, apenas observando algo sombrio nalguma esquina daquela sala. — Incrível…

O som pararia e mesmo assim continuaria encolhida por mais alguns segundos.

— Ei… — Anne sairia da luz. — Vamos!

E ela iria. Pela luz, via o corpo de Anne banhado de sangue, e no corredor, os cadáveres ensanguentados e as manchas nas paredes amareladas. Tinha um cheiro estranho de ferro, poderia dizer, como os corpos que pareciam repousar, pelas posições estranhas como morriam.

— O que tá acontecendo? — Lunar perguntava quando já viravam para as escadas.

— Tão invadindo Los Andes, não tá vendo?

— E Míchkin?

— Tá fazendo a parte dele… — Anne pegaria Lunar pelo colo, e pulava todos os lances de escada como se não fosse nada. — Sei que você se preocupa, entendo até; mas sai dessa. Míchkin precisa de espaço, na verdade muito espaço. Se você tentar sufocar ele com suas amarguras, ele só vai se afastar.

Lunar meio que se incomodava com a forma como era lida. Queria dizer que não era tão fácil, que havia algo ali que realmente tornava toda a situação complexa, mas se perdia. O que poderia dizer em todas aquelas linhas para se defender? Não haveria uma só palavra, pois era tudo verdade. Estava mesmo amargurada, e precisava dele; e como precisava…

— Mais tiros… Merda! — Colocava Lunar pelo chão. — Espera meu sinal…

Lunar sentaria pelo lance, esperando alguns minutos; olhando para lugar nenhum, enquanto achegasse sua cabeça preguiçosamente por suas coxas.

— Isso é babaquice. — Estava puta, se levantava, e também ia. — Sempre me deixam para trás.

Pelas escadarias, alguns corpos, paredes manchadas; mais do mesmo. Ficava preocupada, tentando pensar em que reação esboçaria caso visse alguns dos seus colegas mortos. Poderia sorrir, caso se importasse minimamente, como também deixar em branco.

Que fosse, escutaria tiros no 2° fim do lance, se agarrando à parede, como se elas pudessem te proteger, caindo de joelhos no pensamento, onde estava até de modo preocupada, visualizando nenhuma luz. Percebia próximo de ti, como se não houvesse existido, um homem aprimorado, agonizando. Ele sussurrava algo para si enquanto o sangue espirrava do seu pescoço, de modo ofegante, segurando alguma coisa no seu bolso. Escutava:

— É agora… — Lunar não curtia a imagem, ao som das rajadas de fuzil; parecia que fosse egoísta olhar sem ajudar, principalmente pois não o ajudaria de qualquer forma. — Apenas espero que você não se magoe… por eu não ter voltado para casa…

Olhava, se levantava, e, como se te causasse asco, fugia pelas escadas novamente, no mesmo som. Se morresse poderia se lamentar, se não fosse o caso, tanto fosse; já saía pela porta, chegava num outro corredor, olhava de um lado para o outro: haveriam apenas corpos, sangue, armas e componentes biônicos entre os pisos brancos e as paredes bejes.

Anne estaria por lá, no puro carmesim, segurando um braço qual pingasse sangue.

— Ei… — Lunar diria, e Anne, como se assustada, viraria, apontando uma pistola pra sua cara.

— Disse para você esperar…

— E esperei… mas parece que terminou… bem… acho que podemos ir.

Daria um sorriso e iria na frente dela, como se não se importasse.

— Espera aí… — Anne te agarrava pelo braço. — Não sai andando assim. Acha que sua vida não vale a pena? Míchkin me mataria se eu te deixasse morrer. — Também pegaria na mão dela. — Vamos por esse caminho.

Ficava perplexa ao Anne descer suas mãos pelo seu braço, entrelaçando os dedos. Um tanto maternal, incomodava, queria estar livre; de outro modo que se sentia confortável, onde parecia, pelo menos, que alguém se importasse contigo. Não sabia como reagir, acompanhava seus passos, virando corredor e corredor até se reencontrar com as luzes neon atravessando o espaço. Era engraçado como o sangue ficava pela luz negra, brilhando numa cor branca, pura, como se realmente tivéssemos algo sacro.

— Isso foi um jogo ousado… — Míchkin estava lá, apontando sua pistola para uma mulher caída. — E muito idiota… — Dava um tiro na coxa dela. — Mataram pessoas especiais para alguém que é especial pra mim. — Dava outro tiro no ombro. Havia um grito de agonia percorrendo junto da batida. — Eu não vou te matar, porque não sou imbecil, mas vou te fazer sofrer de um jeito bem pessoal. O que pensa disso? — Seria xingado de algo, não que importasse. — Entendo… — Do bolso do seu paletó, tiraria um pequeno instrumento. — Espero que você me odeie o tanto quanto te odeio agora… — Daria um tiro no peito dela.

— Que show hein… — Anne se aproximava. — Não esperava menos de você.

— Cadê ela?

Lunar iria depois, mais timidamente.

— Aqui…

— Ótimo… vamos sair daqui antes que a polícia chegue… — Colocava aquela mulher pelo seu ombro. — Aliás, seus amigos morreram…

— Não me importa.

Míchkin olharia aqueles olhos.

— Não seja amarga…

Lunar não diria nada. Apenas iria se dirigir à frente, como se não devesse a ninguém.

Anne, ficaria ao lado de Míchkin, daria um tapinha no ombro, e diria sorrindo:

— Ela não é sua filha, sabe.

Ele pegaria um cigarro, olhando para o cenário, como se seus olhos quisessem fugir.

Lunar, qual ainda estava por perto, o olharia pelos ombros.

— Eu sei…

Sairiam de Los Andes, não havia ninguém mais esperando. Lunar olhava, querendo responder alguma coisa. Que fosse. Iriam pela parte de trás, ao estacionamento. Havia uma van enorme negra estacionado ao lado do carro de Anne.

— Eles são muito imbecis. — Ele diria.

— É… — Lunar estaria do lado, vendo Anne falar. — Vamos levar pra Helen Point?

— Devemos levar ela a Helen Point? — Anne e Míchkin olhariam para Lunar.

— Melhor não. Leva você essa van pra Helen Point, eu levo ela pra casa.

Ele olharia bizarramente para ela, como se não entendesse.

— Vou deixar isso pra você então… — Olharia pra Lunar. — Se cuida, depois nós conversamos melhor.

Ela apenas levantaria os dedos vendo-o entrar na van e partir. Era um pouco deprimente, mas estava acostumada. Pelo menos ele disse que a reencontraria, pararia, que te dissesse algumas palavras.

— Vamos? — Anne abriria a porta. — Os detetives devem chegar daqui a pouco, e sinceramente não quero ter que ser perturbada por uma máquina.

— Okay.

Sairiam também, a noite estava movimentada, o trânsito ainda intenso e a luz, belíssima, em cada esquina que passassem, de cada face desesperada pelo asfalto. Fossem devorados pela penumbra, não haveria nada, talvez nem aquele brilho fugindo de suas entranhas como em Los Andes. Anne olharia para Lunar, absorvida na estrada, querendo te dizer algo que fosse verdade.

— De algum modo ele te ama. — Não acreditaria nem por um segundo. — Não sei se é isso que quer escutar, mas acho que preciso dizer. Ele tá amarrado com muitas questões, e, bem, acho que não quer te envolver nisso…

— É mentira… — Virava seu rosto pra Anne, sua face não tinha um traço de amor ou dor. — Ele quer desaparecer, eu sei, tá amargurado, sempre foi amargurado. O problema é que também fico, quando não sei nem quem ele é! Quero dizer, ele é a merda de um assassino? Ele vinha toda semana, nos divertíamos, íamos a festas na iron gate, restaurantes; era quase, não sei, um irmão. Mas aí, um dia eu estou lá, você tá lá, e ele sobe com uma freira, pega uma arma, e sai matando todo mundo. Fico pensando: “Quem é ele?”, e depois ele some, para de aparecer toda semana, não vai mais a restaurantes, e sempre que te vejo, está com aquele olhar frio percorrendo meu rosto. E eu, sem saber o que dizer, sem saber quem ele é, fico aqui, esperando pelo menos uma ligação, pra que ele diga que essa nova pessoa também me ama, se importa, que não é um total estranho…

Anne parava o carro no encostamento, virava seu rosto a ela.

— Isso é triste… — Lunar olharia aqueles olhos e enrubescia, escondendo o rosto entre suas mãos, querendo dizer algo no silêncio. — Ei, para com isso… faz parte. — Não adiantaria, já se afundava no próprio desprezo e vergonha. — Eu amo uma pessoa também, e ela é profundamente distante de mim. — Dava partida no carro. — E tipo, não importa o quanto eu tente preencher seu vazio comigo, ela sempre dá um jeito de deslizar pra longe. É a vida. Você tem que esperar com paciência, ou partir pra outra.

— Outra?

— Outra pessoa. Olha… — Anne pegava um pino do porta-malas e dava um raio. — Não importa o quanto Míchkin fique nessas crises, sempre chega uma hora que ele acorda e tenta dá um jeito nas coisas ao seu redor. Eu vou te contar, só não espalha: antes de eu conhecer Míchkin, ele era um bosta. É sério, esse cara confiante, que faz o que quer, não nasceu do nada. Ele é um produto com defeito, vários defeitos; Você não tem que se achar a raiz do problema e nem reduzir sua existência pela existência dele. Se ele está amargurado, dá um sorriso e foda-se. Se ele está lentamente te esquecendo, vai lá e se esquece dele primeiro.

— Falando assim parece ser fácil… — Pegava o pino das mãos dela e jogava pela janela. — Mas bem, não sei se quero cair em papo de viciada…

— Preconceito?

— Meu pai morreu disso… — Lunar se pegava estranha. — Odeio ficar embriagada…

— Do tipo que conta de toda sua vida?

— Tão óbvio assim?

— Acho que mais que isso… — Abria a janela, deixava o ar frio da noite entrar.

— Mas sério, acho que deveria parar…

— Por quê? — Tinha um sorriso no seu rosto.

— Não sei, você é uma mercenária, ou algum tipo de soldado, sei lá; ficar se entorpecendo deve ferrar com seus sentidos… pode acabar com sua produtividade, sabe…

Até acharia fofo a forma como ela tentava…

— Não precisa se preocupar… — Lunar a olharia de lado. — Sei o que faço…

— Todo drogado diz isso…

— Sou diferente… se eu não usar, meu coração começa a bater muito lentamente… preciso disso para normalizar me espírito…

— Agora pagando de espiritualizada? É bem típico…

Anne daria uma outra risada, olhando aqueles olhos.

— Cala a boca! — Acenderia um cigarro. — Cheiro a mais tempo do que você tem de vida.

— Quantos anos você tem?

— Acho que cinquenta… ou mais…

Lunar pausaria, olharia para ela e riria.

— Esse tratamento é caro… — Diria. — Não mente pra mim, quem te paga?

— Tenho uma sugar mommy… — Ligava o rádio, alguma neon beat tremulante através do espaço. — Ela gosta de manter os seus na linha.

— Nossa … — Balançava a cabeça ao som. — Ela não precisa de outra putinha não?

— Tá dizendo que sou putinha dela?

— E não é não?

— Quem me dera…

— Espera… — Pescava algo. — É ela?

— Quem mais?

Ririam sobre algo, diriam sobre mais um punhado de coisas também. Fosse do que fosse, chegariam no apartamento de Míchkin as duas; subiriam no elevador, juntas, com o mesmo sorriso. Se fosse solidão, se fosse vazio, amargura, ainda teriam umas às outras, naquele lapso de tempo.

— Quando cheguei aos distritos, eu disse que Míchkin era incrível.

— E o que tem?

Não haveria resposta, da garota interrompida e dos lábios colados a lábios, além de algo bonito fora do desespero.

Se naquela mesma manhã se reencontrasse, diria a si mesmo que, pelo menos, alguma coisa valeria a pena, no fim.

— Não faça por ódio.

— Faço porque quero.



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