AVN – Capítulo 57 – O primeiro encontro entre nós…


Seria de beleza que nos enganamos, ao redor da redoma de luz, chamada sonho; o brilho neon pelo nosso rosto, enquanto desvendamos algo que fosse nosso.

Míchkin estava nisso, flutuando através das retinas dela, vendo o mar castanho que se aproximava das conexões âmbar. Seus lábios tentassem dizer algo, enquanto lentamente se esquivava, retorcendo, se remoendo.

— Não vai ficar? — Ela perguntaria. — Se não for ficar, por que então voltou? Não entendo e o que me sobra disso é dor, se não sabe…

— Prefere que eu não volte nunca? — Tocaria nos seus cabelos loiros. — Se for, te faço esse favor…

Não queria dizer algo que fosse tão duro.

— É difícil não ir?

Mas também não poderia mentir.

— Praticamente impossível…

O cheiro de saliva lhe vinha, além dos olhos vermelhos de sono e o cabelo desgrenhado com cheiro de caspa. Se chamava intimidade, a maioria das pessoas não sabiam ao certo o sentimento – era distante como um sonho –, mas muitas vezes não sentia saudades.

— Para de usar essas pílulas.

Seus rostos tão próximos, viam cada linha e marca um dos outros, mas não sabiam o que dizer de verdade.

— Para de fingir que se importa…

Acordava de outro sonho; nunca foi sua, nunca seria, mas ela sempre te desejaria. Olhava através das placas, passando pela multidão do centro de Helen Point, pelo calçadão de luz. Restaurantes acesos, bares, karaôkes, além de boates. Todas as pessoas bem-vestidas, trajando sorrisos, de algumas ébrias de bebida e outras pela própria harmonia.

— Está sozinho? — Tinha essa voz na sua cabeça o dia inteiro e por onde fosse, ela apenas aumentava. — Precisa de algo na sua vida?

Uma outra coisa, ondulando como rádio, captado pelos tímpanos humanos sempre em constante degradação. Olhasse a si mesmo com calma, porém sempre se lembrava dela.

— Eu e Lunar fizemos uma coisa linda… deveria ter visto… — Não que importasse. O que Anne dissesse, onde dissesse, nunca pareceria ser verdade, mesmo que naquele ponto acreditasse. Tinha um brilho específico nos seus olhos, uma vontade curiosa na sua fala.

Ainda andava pelas luzes, no som da turba, com seu rosto fechado e o corpo lentamente desaparecendo em pó. Franker estaria por lá, de mesmo modo, andando como ele andava, olhando para onde ele olhava.

— O que você quer?

— Você sabe…

— Na verdade nunca sei.

Já foi dito, haviam-se passado dois anos. Havia assassinado um total de 30 pessoas, torturado 5, hackeado 17 torres de comunicação, 48 servidores e invadido a proxy mais profunda da GW umas duas vezes. Não que houvesse aquele clichê de fantasmas te atormentarem, na verdade era que tinha nostalgia, de fazer algo terrível para quem que odiava, por algum motivo. Mas não por ele, nunca por ele.

— Estão te tornando um monstro. — E como aquela voz te incomodava. — Você queria a força pra se tornar uma pessoa melhor, agora usa da sua liberdade para limitar outras pessoas. Acha justo?

— Não é de justiça que vivemos.

Heichi no beco, te surrando, acreditava em justiça? Aquela garota também, o que ela tinha? Franker, o pedófilo, sobre o que era? Ou de Anne, de Um, de Sofia? Não há, nenhum pingo do que chamamos de justiça.

— Então se compara a eles?

— Acho que me tornei pior que eles.

Toda amargura em seu peito, cada fragmento de maldade… Medea, próximo de ti, Orfeu que se esquecia, o deus morto do nosso morbo.

— Você culpa Um ainda por isso, mas perdoa ela de tudo. Diz que Anne é uma louca, mas acredita em cada palavra. Quando quis ter o controle, voltando para Redneon, você morreu lentamente; e a pior parte é que já tinha se aceitado acima de todas as coisas.

Vermes te devoravam, paralisado no fluxo, desmanchando lentamente, virando só a casca.

— Parte de ser livre é rejeitar tudo que seja lógico. Vivemos finalmente na disgenia, não preciso me preocupar com nada.

Literalmente, qualquer tipo de deus já estava morto. Havia você, algumas pessoas ao seu redor, e mais ninguém, talvez apenas as vozes na sua cabeça.

— Você vai negar tudo até o fim da sua distopia?

— Ou algo do tipo…

— Nem mesmo vai fingir o fim desta?

— Não vai me convencer disso?

Parava de frente a um restaurante de comida exótica, com janelas de madeira lustrada vermelha e lâmpadas de papel de mesma cor, com palavras Zen envoltas em círculos. Estava escrito paz, mas não era disso que vivia. Homens de ternos portando fuzis estavam fumando, dava para sentir o cheiro de arroz frito e pato fugindo de fora do ambiente.

Sacava sua pistola do paletó, dois ruídos atravessando crânios. A turba ao seu redor num movimento uniforme se abaixando, onde passava. Tirava um emblema do bolso, mostrava a todos; dos quais viam, fugindo como loucos.

— Que merda é essa?! — Escutava de dentro.

— Fomos expostos porra, fomos expostos!

Entrava no restaurante, o piso era ladrilhos, as mesas de ferro e plástico; tudo colorido. Havia um sushi bar, civis abaixados segurando lágrimas, uma escada lateral e um corredor para o banheiro. Olhava, não tinha realmente ninguém ameaçador.

— Turing, caça ele… — Apitava e no som, correria pelo corredor como se estivesse sendo enganado.

Por lá, veria alguns correndo em direção ao banheiro, onde teria um alçapão oculto num dos pisos de cerâmica. Daria três tiros, e deslizaria para dentro. Sua percepção dizia haver bem mais.

— Atrasem o filho da puta. — Encontrava um corredor subterrâneo, estreito, úmido, e com cheiro de esgoto. Caixotes, picaretas, haveria um pouco de tudo.

— Anne… — Fazia uma chamada, tinha quarenta e cinco segundos antes que interceptassem. — Encontrei algo grande. Dê uma olhada…

Continuava, pistola levantada e três tiros. Pessoas vestidas de terno faziam cobertura entre as vigas de sustentação e as caixas. Seus fuzis rasgavam na luz torpe, e Míchkin corria em zigue-zague, como se de algum modo visse as balas, ou, pelo menos, seus trajetos.

Que se aproximasse, visse seus olhos, pusesse as mãos em suas faces e desfigurasse. Era de um só baque, agarrava e colocava contra as paredes de madeira. Teria sangue, um desafogo; depois era só continuar, com a mesma arma e atirar contra o restante. 4 balas, suficiente, o ruído sufocante, membros despedindo do corpo. Toda uma chuva rubra, carne, miolos; uma fonte para si de inesgotável prazer.

— Você acha que isso te faz bem? — Aquela mesma voz, igualíssima desgraça.

— Eu acho que não importa.

Escolhia a direita da bifurcação, havia mais alguns protegendo o túnel. Não que fossem de muito; suas cabeças viravam uma massa gosmenta no passo, e continuava, sem ver a sombra dos seus cadáveres.

— O que você perde quando mata eles? — O túnel parecia ter quase 1 quilômetro de tanto que corria.

— Você quer que eu diga a minha humanidade, mas, na verdade, não consigo sentir nada…

Nada transpassa o que somos quando simplesmente não nos importamos. Enxergava em cada morte um vazio imenso, como se fossem simples objetos descartados. Se perguntava se não era isso que sentiam os mercenários da periferia do mundo, ou até mesmo cada engravatado degustando caviar, enquanto do outro lado dizia que executaria todos os marginais entre seus dedos.

— Quando o ser humano deixa de ser humano? — A voz era quase um grito no seu interior. — Acho que quando deixa outro decidir o rumo do próprio destino…

Parava, olhava para as luzes distantes do fim túnel subterrâneo. Sentia frio, sentia até medo, e, acima de tudo, ódio pela voz qual persistia na sua cabeça.

— O livre-arbítrio permite escolher nossos senhores… — Apontava a arma em direção ao nada. — Destino é uma consequência natural à quem controla, e os controlados devem agradecer a dádiva pela não-decisão, de modo que nunca seremos culpados. Sabe de que tipo de riqueza isso me preenche? Não sabe, está preenchido com esse senso deturpado de liberdade, essa ilusão ingrata de que contempla a pária. O ser humano nunca controlou nada, sempre deu todos os seus poderes a deuses. E a culpa é de quem? Não minha, talvez sua, mas do que adiantasse? Hoje vivo por quem salvou a minha vida, de quem me mostrou o vazio; e por mais que ela só deseje me usar, sei que é para isso que cada homem vive.

Disparava e na distância, um ruído específico soava, como se martelasse plástico. Toda a visão escurecida reencontrando a luz do fim do túnel, não que fosse de morte onde estava. Andaria lentamente, em direção aquela parte, onde veria uma câmara, de 9 fuzis apontados para ti.

— Finalmente nos encontramos.

Tinha no centro uma cabeça num altar, conectada num círculo de potencial magnético para interface neural, além de cabos intravenosos salientando por debaixo de sua pele. Poderia dizer que levavam açúcar, como também proteína. De todas as formas era uma técnica muito vulgar, para alguém que fosse tão importante.

— Por que me quis aqui?

Ele não falava, mas tinha voz. Sua face amarelada, os olhos com manchas vermelhas, o topo da sua cabeça que brilhava de ausência. Era um cadáver, praticamente, porém era a catarse para ti, o que doía ainda, de algum modo.

— Eu não te quis, você sabe, ninguém nunca te quis. — Míchkin tirava um cigarro, e todos os soldados hesitavam, como se, num suspiro, tudo parasse e tão intensamente retornasse. — Mas Franker está na sua cabeça, e isso incomoda. Havia uma ordem natural, uma imposição das linhas que diz para que tudo se mantenha nas linhas…

— O que você quer?

— Eu não quero nada. Naquele dia chuvoso, Franker destruiu meu espaço vazio. Sou uma simulação apenas capaz de dizer aquilo que já disse, ou que pretendia dizer. Por isso me apego bastante ao que já conheço e reconheço. Você não se encaixa em nada, por isso me incomoda.

As armas apontadas tremiam um pouco, como se desejassem serem postas de lado. O mundo não parava. Cada palavra, um outro tipo de caco; e não só era a superfície que arranhava. Havia um caminho, algo através de nós mesmos, eles observavam, no silêncio de ambos, da incapacidade de colidirem, como dois astros brilhantes se encarando.

— Eu não me importo, mesmo assim quero saber o por quê? Que paradoxo de merda não concorda?

— É o meu palco, como se sente.

— Incomodado, um pouco irritado até, acho que desejo sua completa morte.

— Mas já estou morto.

— Sua verdade ainda persiste e acho que é sobre isso que cá estamos.

Se aproximava da cabeça, olhava todas as conexões, os círculos, e os cabos.

— Eu preciso te dizer algo importante. — Não tinha expressão sua cabeça decepada. — O que pensa disso?

— O que você quer que eu pense?

Não pensava exatamente do que era, mas imaginava sobre o que poderia ser. Os olhos inertes, das retinas infeccionadas. Se sentisse saudades do corpo, quão podre na verdade estava?

— Eu sou a verdade… — Dois fuzis rapidfire atravessam seus ouvidos, na lateral de seus olhos, apoiados nos seus ombros. — E vou te libertar… — Disparavam e não conseguia escutar mais nada. Apenas um ruído distante, o cair das cápsulas vazias, o perfurar da carne e a imersão das balas no sangue.

— De-K, Bonh, vocês estão atrasados.

Tremia, conseguia nem acender seu cigarro de fronte a todos aqueles cadáveres.



Fontes
Cores