Ronan – Capítulo 100 – Primo – Parte IV


Atenta às vozes vindas do bosque, Vitória veio acompanhada de Ronan até o parapeito da varanda. A mão direita dela foi ao ouvido, parecia tentar discernir de quem pertencia aquelas vozes. E deve ter funcionado, pois…

— Deve ser o Victor e a amiguinha de vocês — ela disse com um sorriso contido em seus lábios.

Dois vultos surgiram e sumiram entre os troncos e as folhagens da vegetação.

O som da conversa ganhou nitidez, revelando aos três qual era o assunto debatido: memórias de uma infância compartilhada.

A primeira figura surgiu, era um homem de rosto quadrado, alto, talvez dois dedos maior que Ronan. Seu cabelo castanho penteado para o lado deixava sua farta testa à mostra. Nos olhos castanhos, o óculos retangular lhe agraciava ares de sabedoria. A túnica marrom com bordas pretas presa a um cinto roçava em suas canelas ao caminhar muito paciente pela trilha desfolhada.

— Então eles são os rapazes que você mencionou — Victor anunciou ao se aproximar da varanda onde estavam seus espectadores.

— Um deles tem a cabeça oca, mas você se acostuma com o tempo.

— Qual deles? — perguntou para a prima ao seu lado.

— Você logo saberá — disse Anna após uma breve risada.

Os três degraus que separavam a trilha da varanda rangeram com os pesados passos da bota escura de Victor, mas quando Anna subiu… nada foi ouvido.

Reunidos e como se movidos por instinto, todos os cinco foram até o centro da varanda e formaram um círculo. E com apertos de mãos eles se cumprimentaram. Ronan e Dario permaneceram tímidos perante o homem em sua frente, que não perdeu tempo, e já começou a discursar.

— Como me tornei Sábio faz pouco tempo, essa é a minha primeira vez orientando alunos. E pensar que no começo do ano eu ajudava meu antigo Mestre. Mas devo dizer que fizeram a escolha certa ao participar dessas atividades. Eu, em particular, sempre me inscrevia nessas oportunidades em meus saudosos dias de universidade.

— Falando em “Mestre” — começou Anna. — Soube que é dessa forma que os moradores do vilarejo ao lado vêm te chamando.

— Pois é. — Victor levou a mão à nuca. — Eles não se importam tanto com títulos quanto nós manipuladores. Se eles preferem se referir a mim como “Mestre”, quem sou eu para corrigi-los, não é verdade?

Ouvindo justamente aquilo que buscava, Anna fingiu duas tossidas e direcionou um questionamento para o seu alvo.

— Não é mesmo senhor Zeppeli?

Mas ele fingiu nem ouvir.

Victor avaliou os três estudantes. Aproveitando a deixa, Vitória tratou de um assunto pertinente.

— Antes do Victor explicar como serão as atividades, acho oportuno discutirmos a lotação dos quartos. No momento temos cinco pessoas para quatro camas.

— Eu já pensei nisso — disse o Sábio precavido. — Eu e Anna somos família, então ocuparemos o mesmo quarto. Enquanto você e um dos rapazes a seu critério ocupam o outro.

— Nada disso. — Vitória balançou indicador. — Ambos são nossos convidados. Como funcionária oficial desse empreendimento é meu dever ceder à cama para ocupar o sofá da sala.

— Mas o sofá é uma…

Antes que pudesse expor a precária situação do móvel, o Sábio foi interrompido.

— Eu não me importo.

— Você que sabe — acentuou sua desistência com um dar de ombros.

Anna puxou da bolsa o folheto referente à atividade que eles se inscreveram. Leu em voz alta o título: História da Manipulação, e questionou:

— Victor, que tipo de atividades nós vamos realizar aqui?

O primo optou por não responder de imediato, em vez disso, contornou o circulo de manipuladores e parou no batente da porta.

— Podem vir, vou explicar com mais detalhes aqui na sala.

Vitória o seguiu de imediato, deixando os três sozinhos na varanda. Eles se entreolharam, assentiram mutuamente e entraram na cabana pela porta dos fundos. Lá dentro, lado a lado e em pé, estavam o Sábio e sua colega que os convidou a sentar no sofá.

Tomando cuidado para não derrubarem as pilhas de livros e louças sujas acumuladas no cômodo, eles ocuparam o largo assento oferecido por Vitória. Mas antes de iniciar as devidas explicações, Victor ajeitou a posição dos óculos com o indicador.

— Posso explicar a eles? Por favor? — Vitória pediu levantando a mão.

— Fique a vontade.

— Sobre o quarto trancado que mostrei a vocês. — Apontou para o cômodo a direita deles. — Não fiquem receosos com que há lá dentro. Nós apenas trancamos a porta para que nenhum gatuno roube nossas anotações, livros e demais materiais vitais para o projeto em desenvolvimento. Quanto à função a ser desempenhada por cada um de vocês, nós precisaremos de alguém para acompanhar o Victor de perto, enquanto os outros dois viajarão em busca de materiais nas bibliotecas e livrarias da cidade.

— Sobre isso — interveio Victor. — Sobre quem me acompanhará de perto. Eu já conversei com a Anna quanto a isso — disse olhando para sua ajudante, que entendeu o que ele quis dizer.

— Então está decidido — anunciou Vitória. — Os rapazes começarão buscando os materiais indicados na cidade de Rioalto.

Dario apenas levou uma mão ao rosto.

— E a Anna, o que ela vai fazer?

Victor e Vitória se entreolharam.

— Ela vai começar me auxiliando no atendimento aos moradores da vila. Vez ou outra nós sairemos assim como vocês. Agora, se por ventura nós quatro nos ausentarmos, a Vitória ficará para cuidar da “fortaleza”.

— A gente só vai buscar livros e coisas do tipo? — Ronan perguntou com toda educação, não queria passar a mesma má impressão do amigo decepcionado.

Com um belo sorriso nos lábios, Vitória respondeu:

— No começo sim, mas depois vocês se tornarão meus ajudantes particulares. — Dario escorreu as mãos em eu rosto. Vendo a reação do rapaz, ela complementou: — Como vejo que um de vocês não parece muito satisfeito, eu posso ajudá-los a praticar manipulação nos tempos livres.

— Agora sim! — O entusiasmo de Dario arrancou um riso da ruiva.

— Ótimo — disse Victor batendo uma palma. — Agora vocês três podem dar um jeito nisso? Por favor? — Com os dois braços esticados ele apontou para a sujeira na sala.

— Mal posso esperar — Dario lamentou.

Victor e Vitória voltaram ao trabalho. Não querendo atrapalhar a limpeza executada por seus novos assistentes, os dois foram até a varanda de trás. Dario foi incumbido de espanar o pó acumulado nos móveis, livros e utensílios.

Anna ficou de lavar a louça e Ronan de organizar a bagunça largada ao acaso. Tamanha era a sujeira e desleixo que os três precisaram trabalhar até o pôr do sol. Assim que terminaram, os três correram para descansar em suas novas camas.

Para recompensar todo o esforço empreendido, Vitória preparou um caprichado jantar enquanto Victor terminava suas anotações sob a luz alaranjada do sol poente.

— Terminei — ele disse bocejando ao se espreguiçar.

— Ótimo, já está tudo pronto. — Levou a colher de madeira a boca para provar. — Excelente trabalho Vitória — elogiou a si mesma, repousou a colher na bancada e inspirou para anunciar: — Jantar na mesa pessoal.

Rostos cansados surgiram na soleira das portas dos quartos. O arrastar dos pés descalços nas tábuas ressoaram pela sala-cozinha, agora limpa e minimamente habitável, sem pilhas de livros e louças sujas espalhadas, agora a circulação fluía como o vento em campo aberto.

A mesa de quatro lugares foi arrastada para o meio da sala, aumentando o espaço livre até o sofá, onde Victor já degustava sua refeição. Vitória sentou-se de costas para a bancada, mas de frente ao sol poente emoldurado na janela quadrada do cômodo. Anna sentou na outra extremidade, com Dario à esquerda e Ronan a sua direita.

— Sirvam-se a vontade pessoal — a ruiva os convidou.

Cada um serviu-se de um pedaço do grande peixe sobre a travessa de madeira clara posta no meio da mesa. Embelezando a superfície havia batata cozida, cenoura, pão e, para descer, suco das laranjas recém-colhidas e espremidas.

— Infelizmente não dispomos de nada alcoólico na dispensa, espero que isso não seja um incomodo para nenhum de vocês.

— De forma alguma.

— Não tem problema, nós nem gostamos — justificaram-se Ronan e Dario em tom apologético.

— Tanto eu quanto o Victor não gostamos dessas bebidas, por isso nem nos demos o trabalho de deixar uma reserva. Pensando bem, isso é até rude com as visitas.

— Vitória, você não precisa ficar se justificando tanto. Eles já entenderam e tenho certeza que não se importam de verdade, não é mesmo?

Os três concordaram sacudindo a cabeça.

O jantar prosseguiu num clima bem humorado entre conversas genéricas e relatos de histórias antigas protagonizadas pelos presentes. Anna, Ronan e Dario adoraram a comida feita pela instrutora, tanto que agradeceram e ajudaram na limpeza.

Após toda louça ser devidamente lavada, Victor continuou trabalhando, lendo e anotando o que lhe interessava em intervalos regulares. Vitória tomou para si a tarefa de se familiarizar com os convidados para deixá-los confortáveis com as tarefas a serem desempenhadas na manhã seguinte.

Velas foram acesas com a chegada da escuridão. O sol ausente realçou o brilho refletido na lua, que permanecia orgulhosa no céu impedindo que o breu engolisse a noite para si.

Na varanda da frente, Vitória, Anna e os dois rapazes conversavam sobre suas trajetórias até o momento.

Os três estudantes descobriram que a instrutora de cabelos vermelhos e olhos verdes almejava mais do que o título de Sábia, ela buscava tornar-se uma Mestra, ou quem sabe, se o destino favorecesse: Grã-Mestra. Apesar de admitir tamanha ambição, Vitória confessou não sonhar com o título máximo de Arquimaga, pois em suas palavras:

— É um título meramente político, tem muita pouca relação com as Artes Arcanas verdadeiras. Sendo Arquimago você não passa de um reizinho disfarçado, que em vez de usar uma coroa na cabeça, veste um manto colorido para se destacar dos demais.

— Que bom que a Nat não veio, ela iria pular no teu pescoço, Vi, tenho certeza. — Os olhos verdes da instrutora brilharam ao ouvir seu nome dito daquela maneira. Tanto que nem se importou com o comentário em si.

— Já é tarde não é pessoal? Acho que é uma boa hora para nos deitar.

— Concordo plenamente — disse Dario, seguido de um longo bocejo.

Os quatro entraram na cabana. Vitória trancou a porta da frente e correu para se jogar no sofá da sala, onde seu lençol já a esperava.

— Boa noite rapazes — Anna despediu-se e entrou no quarto à esquerda.

Dario e Ronan retribuíram o gesto e caminharam até o outro quarto, onde duas camas em lados opostos os esperavam.

— Não decidimos em qual delas nós… — Ronan parou quando Dario jogou-se na cama à direita. — Tá certo…

Ronan despiu-se primeiro das vestes mais pesadas. Jogou o casaco num cabideiro, descalçou as botas e esparramou-se na cama que sobrou. O desgaste da longa caminhada e da extensa faxina fez o cansaço nocauteá-lo em um sono profundo.

Até algo o arrastar de volta ao mundo dos acordados.


Cansou de esperar lançar capítulos?

🛒 Adquira o eBook e leia agora mesmo todos os capítulos.

💵 Quer contribuir de outra forma? Faça hoje mesmo sua doação no Padrim.

🌟 Você pode me ajudar sem gastar nada, comente, avalie e favorite Ronan na Central Novel.


Autor: Raphael Fiamoncini



Fontes
Cores