Ronan – Capítulo 101 – Primo – Parte V


Ronan sentiu algo agarrá-lo pelos ombros e sacudi-lo. Abriu os olhos em desespero, mas deparou-se com um breu aterrorizante.

A força oculta pelas trevas insistiu em arrastá-lo para fora da cama. Ofegando e suando o nervosismo para fora, Ronan tateou a escuridão até apalpar o braço agressor e exprimir seu ódio e revanchismo em um ato, segurou-o com força e enterrou sem piedade as unhas na pele dele.

— Para seu imbecil, sou eu — sussurrou uma voz familiar.

— Anna? — sussurrou de volta.

— Quem mais poderia ser?

— Nessa escuridão poderia ser qualquer um.

— Tens razão…

— Mas como sabe que eu estaria nessa cama?

— Eu escutei o barulho de um idiota pulando naquela cama.

— Bela audição, mas poderia ter sido eu.

— Não se subestime Ronan.

As mãos da amiga o puxaram pelo braço, fazendo com que levantasse.

— O que você quer? Precisamos acordar…

— Quero te mostrar algo, agora! Te espero lá fora, na varanda da frente.

— Hein? O quê? Tá, tá bom…

Os sons dos cautelosos passos de Anna foram desaparecendo aos pouquinhos.

Ronan vagou pela escuridão. Buscou com o tato o local onde largou o calçado. Abaixou-se, sentiu o couro de uma das botas e a puxou. Ruídos metálicos puderam ser ouvidos vindos da porta da frente, mas ignorou. Encontrou a bota faltante ali perto e calçou-a. Na primeira esticada de braço alcançou o casaco no cabideiro e o vestiu em três movimentos.

Saiu do quarto tateando as paredes, virou à esquerda e seguiu pelo único corredor, onde no fim, a porta da frente fora aberta, destrancada por Anna, ela permanecia de costas a ele, na varanda, com uma mão na cintura e a outra girando o chaveiro de Vitória. Não disse nada, caminhou pelo corredor mal iluminado até alcançá-la. Anna o ouviu se aproximar quando esteve a três passos de distância, então se virou.

— Boa noite príncipe adormecido. — Seu sorriso e olhar cintilaram um instante, agraciados pelo brilho lunar.

Ronan respondeu após um prolongado bocejo:

— Espero que isso valha a pena.

— Isso vai depender de você.

Uma lufada de vento sacudiu o cabelo dela, empurrando as pontas dos fios na altura do ombro.

— Roubando chaves, hein? Estou decepcionado com você — disse ao contorná-la, com o sarcasmo trasbordando sua voz. — Mas o que você queria me mostrar?

Anna apontou para a estradinha indo para o oeste.

— Que tal uma volta nesta noite estrelada? — o sorriso misterioso daquele lábio cativou o rapaz.

Ronan não respondeu de imediato. Caminhou para fora da varanda, cruzou o quintal e parou ao alcançar a estradinha. Permaneceu de costas para ela e disse olhando por detrás do ombro:

— Vamos? — Com as mãos nos bolsos, uma segunda lufada de vento balançou o seu casaco, assim com as felpas da gola.

Anna adiantou-se e o alcançou. Lado a lado começaram a caminhada em direção oeste, onde a lua banhava os campos verdes que se elevavam no horizonte.

Os dois caminharam lentamente. Nenhuma cerca ou coisa do tipo acompanhava o trajeto.

Conforme passavam, elevações e depressões foram surgindo. A farta grama não falhava, tingia a paisagem de verde sem deixar o marrom aparecer. Pinheiros surgiam e desapareciam, assim como os inúmeros rios e nascentes, tão famosos na região.

Tudo escurecido pela noite.

— Essa é a terceira pontezinha que cruzamos — Anna observou.

Eles pararam e recostaram-se na mureta de pedra que delimitava a passagem da pequena ponte erguida com o mesmo material.

Vislumbrando a depressão além-rio e a elevação além-depressão, eles permaneceram em silêncio. Até Anna tremer e soltar um gemido quando uma rajada fria a atingiu pelo flanco esquerdo. Ela sentiu algo macio aquecer o seu ombro. Ronan a tinha envolvido com o seu casaco. A gola felpuda aqueceu seu pescoço numa prazerosa maciez inesperada.

— Obrigado Ronan. — Então vislumbrou o amigo que vestia apenas uma camiseta manga longa e se aguentava para não tremer de frio.

— Anna. Você só queria caminhar mesmo?

Os olhares se cruzaram, ambos se apoiavam no parapeito da ponte. Uma nova e gélida lufada fez Ronan bater os dentes.

— Você sabe que não. — Voltou o olhar para a correnteza no rio abaixo. — Até quando vamos fingir que nada aconteceu?

— Eu ainda, me sinto confuso.

— Mas você gosta de mim?

— Gosto.

— Mais do que amizade?

— Mais que amizade.

— Você ainda gosta dela?

— Gostar? Não…

— Sente atraído por ela? Seja honesto… por favor.

— Sim.

— Eu sei que não sou linda como ela, rica como a família dela. Não sou genial nem poderosa desde pequena. É covardia querer me comparar a alguém como a Nat. Por anos vivi sob aquela imensa sombra, a sombra de alguém nascida para grandeza. Para feitos muito maiores do que eu possa almejar.

— Você é uma idiota mesmo. Ficar se comparando àquela filhinha de papai com um sobrenome bonito, que coisa patética de se fazer. — olhares voltaram a se cruzar.

— Ronan…

— Nós somos melhores que ela, tanto eu quanto você, você só precisa vê-la por uma nova perspectiva. — Ronan desencostou-se do parapeito e aproximou-se da garota agora em sua frente.

— Ronan… — ela repetiu num murmúrio tenro, carregado daqueles sentimentos entalados na garganta há tanto tempo.

— Anna. — Ele fechou os olhos, suspirou e os arregalou. — Eu gosto de você. — seu rosto corou, mas não deixou se abalar pela timidez e a incerteza que brotavam em sua mente. Tomou para si a coragem de que tanto fugia. — Me desculpe por tudo. — Ele a segurou pelo casaco, ela envolveu os braços em sua cintura e repousou o rosto em seu peito.

O calor do contato fez com que outra gélida rajada de ar fosse ignorada. Abraçando a garota, Ronan ouviu uma fungada e uma expiração pesada, carregada. Olhou para baixo e apenas viu os milhares de fios castanhos do cabelo dela.

— Anna, você está chorando. — Então sentiu o rosto dela inclinar sob o seu peito, para encará-lo com os olhos úmidos.

— Estou… — disse manhosa, fechando os olhos, mas com um sorriso nos lábios.

Ronan ficou emocionado com a felicidade melancólica naquele lindo rosto. Sentiu um turbilhão de emoções lutarem em sua mente: felicidade, amor e desejo eram algum deles, de longe os mais fortes. Uma gota brotou e escorreu pelo rosto, cativando a atenção da garota que o admirava.

— Ronan, você está chorando.

— Talvez — disse fechando os olhos com um sorriso no rosto. Sentiu o suave toque das pontas dos dedos de Anna em sua bochecha. O calor da palma aqueceu sua face. Permaneceu com os olhos cerrados e degustou a sensação do toque. O olhar foi se abrindo devagarinho, revelando os olhos castanhos que o encaravam.

— Somos agora… — Anna desviou o olhar. As bochechas coraram numa tonalidade rosada. — Um casal? — perguntou baixinho, já retomando o contato visual.

— Vai depender de você — respondeu um tanto desconcertado.

— Você sabe que eu quero. Irritou-se um pouco com a resposta do “amigo”.

— Mas…

Anna avançou sobre Ronan e roubou um beijo atrapalhado. O simples contato de lábios fechados fez com que ambos recuassem, desfazendo o abraço num instinto irracional. Por um tempo, apenas se olharam com dúvidas em suas feições.

— Foi ruim? — Ela perguntou dando um puxão no casaco felpudo.

— Não sei. — Não soube o que responder.

— Desculpe — Sua voz foi se perdendo ao falar.

— De novo?

Anna foi se aproximando. Ao chegar perto, Ronan a agarrou pela cintura e tomou a iniciativa. Sentiu a pegada de Anna em seu braço. Lábios fechados se encostaram. Expirações afobadas exalaram ar no outro.

Anna teve coragem de ir lentamente abrindo a boca, seus lábios beijaram os de Ronan, que logo a imitou.

Então afastaram o rosto

Para Anna ainda faltava alguma coisa, mas já estava feliz com o progresso.

— Melhor né? — perguntou acariciando o rosto do rapaz com a mão. Ele concordou num aceno sorridente.

— Ficou bem melhor, mas parece…

— Faltar algo, né? — Anna completou entusiasmada.

Ronan balançou a cabeça freneticamente e encaixou uma das mechas dela por detrás do ouvido.

— A gente poderia perguntar pro Dario. — Sua voz e feição soaram sérias.

Os olhos do garoto arregalaram com a pergunta.

— Tá louca?

— Era brincadeira, seu bobão — respondeu rindo. — Mudando de assunto. Vai ser estranho quando voltarmos para casa, não é?

— Por quê?

— Teremos dois casais felizes — ela disse sorrindo, mas logo a seriedade voltou a seu rosto. — Se eu te pegar olhando esquisito pra Nat eu te mato.

— Eu não gosto dela, pois é você quem amo.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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