Ronan – Capítulo 102 – Aprendiza – Parte I


O frio da noite anterior perdurou na manhã do dia seguinte. Nuvens cinzentas e carregadas foram arrastadas pelo vento que envergava a vegetação ao redor da cabana. Rodeados deste clima sombrio, Ronan e Dario partiram rumo à cidade de Rioalto em busca dos materiais requisitados por Victor, o Sábio que no momento instruía sua nova aprendiza.

— Anna, eles tiveram que ir. Nós precisamos de todo material ao nosso alcance. — disse o Sábio enquanto tateava as gavetas da estante.

— Tá bom, eu já entendi, mas por que a Vitória saiu também?

— Ela costuma visitar o vilarejo pela manhã. — Levantou-se com um caderno em mãos. Ao seu redor, pilhas de livros, cadernos e folhas avulsas compunham o depósito da cabana, o cômodo sem janelas que vivia trancafiado.  — De todo o material ao nosso redor, esse aqui é o principal — balançou o caderno em suas mãos. — É nele que catalogamos tudo de mais importante, entendeu prima? — Anna sacudiu a cabeça. — Ótimo, pois ele pertenceu ao meu antigo Mestre e agora, se encontra em minhas mãos e nas de Vitória. No futuro pode pertencer a você também.

— Mas eu ainda não entendo o que vocês fazem aqui exatamente. — Anna apoiou o cotovelo no batente da porta.

— Já explicamos a vocês. Nós ajudamos o vilarejo como podemos enquanto pesquisamos sobre a História da Manipulação.

— Ainda acho esquisito fazer isso tão longe das bibliotecas, ou da civilização.

— Era o único lugar disponível onde a Ordem pagaria o aluguel, senão, teríamos de pagar nós mesmos. — Victor a encarou por um instante. — Podemos ir até a sala? Já encontramos o que eu queria.

Anna concordou com um aceno e os dois saíram do depósito. Victor trancafiou o cômodo com a chave que pendurava no pescoço, oculta por baixo das vestes. Em poucos passos já estavam na sala da cabana, onde Victor convidou a prima a sentar no sofá de três lugares.

— Você tem medo de sangue? — ele perguntou ajeitando os óculos.

— Não, mas se serve de alguma coisa eu costumo carregar um estojo de primeiros socorres da qual já tive de usar algumas vezes.

— Ótimo. Fico feliz em saber que já tem alguma experiência no assunto. — Anna pôde sentir a felicidade transmitida por detrás dos óculos — Por algum motivo misterioso os habitantes do vilarejo vivem se machucando, e cabe a nós aliviarmos a dor. — Sobre a mesa de jantar Victor deixou uma pilha de três livros, dos quais retirou o de cima, um retângulo de capa vermelha. — Primeiro socorros para iniciantes — leu o título para sua aluna. — Neste volume você aprenderá o essencial para me acompanhar durante os atendimentos. Quanto aos outros dois, eles possuem uma linguagem técnica, por isso não hesite em me perguntar caso vier a ter dúvidas. — Ele segurou os dois livros mencionados com a mão livre. Jogou o terceiro por cima da pilha e ofereceu a ela. — Agora são seus, faça bom uso deles. — Anna pegou os presentes para si e contemplou a capa de cada um.

— Obrigado Mestre.

— Não precisa me chamar pelo título quando estamos a sós. A propósito, eu não sou um Mestre, não ainda.

— Que tal então: “mestre” com “m” minúsculo?

— Você pronúncia da mesma forma, prima.

— Tem razão, mestre com “m” minúsculo.

Primeiro Victor deu algumas risadas bem educadas para agradar a prima, mas instantes depois, rendeu-se a histeria gargalhante que viera do nada.

— Agora é que eu entendi — disse quando recuperou a compostura, mas ainda entre risos. — Aproveitando o momento descontraído, qual é a sua relação com aquele garoto?

— Qual deles? — Anna indagou desviando o olhar para os livros em suas mãos.

— Aquele que carrega uma espada para cima e para baixo. Aquele com que você deu uma fugidinha ontem à noite. — Sua feição não demonstrou irritação, apenas curiosidade. — Se quiserem sair à noite por mim não tem problema, mas não roube as chaves da Vitória. Aquilo foi triste e decepcionante da sua parte.

— Perdão. Eu sei que foi errado. — Tomou coragem para olhar naqueles olhos por atrás das lentes vítreas dos óculos. — Prometo que não farei isso de novo.

— Eu acredito em você. — Victor disse contornando a mesa da sala-cozinha. Ajeitou o robe marrom e sentou ao lado de Anna. — Mas o que há entre você e o rapaz?

— Estamos. Nós. É… — Parou, fez um biquinho e chutou: — Um casal? Tem algum problema? — perguntou exalando todo constrangimento que sentia.

Victor arregalou os olhos e sacudiu a mão direita em rápidos movimentos.

— Não, não. Eu não quis te interrogar como seu “mestre”. — Fez as aspas com as mãos. — Eu perguntei como amigo mesmo. Queria saber da história entre vocês.

— É complicado…

— Como seu mestre eu lhe dou quinze minutos para contá-la.

Nervosa e atrapalhada, Anna contou a ele a breve história envolvendo ela e o garoto. Começou do primeiro dia de aula, onde não trocaram uma palavra. Foi para a relação construída pelo antagonismo entre Dario e Nathalia. Contou sobre todos os incidentes: a ventania conjurada na sala de aula; o dia que ela foi queimada no braço por sua amiga; o dia que Nathalia disparou uma conjuração de sangue em Dario, entre todas as outas confusões e eventos que resultaram no confronto entre Ronan e Dario em Aguarasa, e a confissão na ponte a poucos quilômetros da cabana onde estavam.

— É uma bela história, de verdade, fico feliz que ele tenha visto o que há de bom em você. Não pude deixar de notar as confusões causadas pela tal Leonhart.

— Obrigado. Quanto a Nat… ela realmente da muito trabalho, isso é inegável. Mas eu gosto muito dela, apesar de tê-la abandonado aquela vez. — Seus olhos castanhos se arregalaram para o que estava por dizer: — E a Vitória? Qual a relação entre vocês?

Victor abafou uma risada despojada quando ouviu a pergunta.

— Não há nada, prima. Desculpe lhe dizer isso, mas relações amorosas entre manipuladores são complicadas por natureza.

— Mas por quê?

— Você saberá um dia — respondeu dando um tapinha na coxa dela.

Ele levantou-se, e antes que pudesse dizer o que tinha em mente, a porta da frente foi escancarada e uma voz desesperada anunciou:

— Victor! Precisamos de você.

O Sábio virou-se para o corredor de entrada e disparou rumo à porta da frente. Com o coração na boca, Anna o seguiu para ver o que tinha acontecido. Vitória carregava um corpo com a ajuda de um morador do vilarejo. Atrás dela, três outros rapazes a acompanharam, mais atrapalhando do que ajudando.

— Vocês! — Anna bradou encarando os rapazes ociosos. — Se não forem ajudar, saiam. — Sabia estar certa em repreendê-los, mas a rispidez em sua voz a fez repensar na postura adotada: — Por favor. — Pelas expressões constrangidas que viu naqueles rostos, eles haviam entendido o recado.

E permaneceram na varanda da frente.

Victor já correra para trás da cabana, Vitória e um rapaz de camiseta azul carregaram o corpo do ferido até o leito arrumado pelo Sábio. Com todo o cuidado o paciente foi deitado. No abdômen havia uma perfuração do tamanho de um punho fechado. Sangue escorria pela pele, manchando o lençol azul, caindo nas tábuas do piso.

Anna se aproximou do rapaz que ajudou a trazer o amigo, e pediu para ele esperar na varanda da frente com o resto do pessoal.

— Ele perdeu muito sangue, Victor — disse Vitória ao desabotoar a camiseta do ferido. Ao ver que o amigo dele tinha saído, elogiou a responsável: — Bom trabalho querida. — agradeceu Anna olhando por detrás do ombro.

O Sábio ajustou os óculos com a ponta do indicador e analisou o ferimento já devidamente atado por Vitória.

— Vai dar para salvá-lo do jeito tradicional.

Anna foi se aproximou devagarinho.

— Não dá não Victor. Você não viu quanto sangue foi perdido até chegarmos aqui. E quem sabe quanto tempo ele ficou sozinho sangrando até os rapazes encontrá-lo. Ele nem está consciente para começo de conversa. Olhe o quão pálido está, podemos já tê-lo perdido. — A seriedade de Vitória espantou Anna, que observou a situação desenrolar a cinco passos de distância.

Victor abaixou a cabeça, fechou os olhos, levou a mão à testa e refletiu. Vitória não tirou os olhos dele, assim como Anna, que aguardava a resposta do primo. Parecia estar vivenciando uma cena tensa de um dos seus romances favoritos.

Um estrondo tirou Victor do transe. O punho fechado de Vitória permanecia em cima do balcão encostado à parede.

— Então? Vai condenar mais um por teimosia? — Vitória o encarou com a mesma seriedade expressada antes.

O sábio ajeitou seus óculos mais uma vez, mas dirigiu-se à prima:

— Anna. — A face dele adotou a mesma seriedade da ruiva. — Você insiste em ser minha aprendiza? — Ela confirmou num menear. — Mesmo que possa testemunhar algo que a perturbe? — Anna hesitou um instante, pensou no que aquelas palavras poderiam dizer, mas aceitou. — Ótimo, pois lhe mostrarei algo que talvez não devesse.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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