Ronan – Capítulo 103 – Aprendiza – Parte II


O sol da tarde contornou as tábuas do teto da varanda traseira, alfinetando as pálpebras de Anna com seus raios irritantes.

A garota agarrou a ponta do cobertor azulado cobrindo as pernas do paciente. Ele roncava despreocupado, como se não soubesse o que foi feito poucas horas atrás. A cor voltou ao rosto dele, sua camiseta fora retirada por Anna e estendida na cerquinha para que secasse.

Ela não conseguia tirar da cabeça a cena testemunhada. Aquilo foi milagroso, algo que poderia mudar o mundo para sempre, se para melhor, dependeria de quem fizesse.

O robe marrom de Victor foi captado por sua visão periférica, mas Anna não se deu o trabalho de vê-lo diretamente. O sábio aproximou-se, parou e permaneceu ao seu lado esquerdo, com as mãos atrás das costas.

— Incrível não é mesmo? — Ele também observava o paciente.

— Até demais.

— Você vai se acostumar, eu te garanto.

— Foi assustador, fiquei com medo.

— Eu percebi. Eu também fiquei apavorando quando testemunhei o Mestre Marcos fazer pela primeira vez.

— Você pode mesmo fazer esse tipo de coisa?

— Antigamente sim, mas após a troca do Arquimago, não tenho mais tanta certeza.

— Então por que continua?

— Alguém precisa desempenhar esse papel.

— Eu já ouvi os rumores, pesquisei a fundo sobre, mas ver isso na minha frente é algo bem diferente de tudo que eu vi ou li durante os meses que estive na universidade.

— Você quer desistir?

— É claro que não. Na verdade isso me motiva ainda mais em ser sua aluna. — Anna virou-se e o encarou com toda seriedade que acreditava ser capaz de adotar. — Eu quero aprender a conjuração de cura.

            Para Ronan, a Biblioteca de Rioalto foi uma daquelas decepções causadas por uma expectativa não atendida. Esperou dar de cara com um prédio tão massivo em conteúdo quanto à Biblioteca Universitária, mas em vez disso, se deparou com o que parecia uma mera livraria.

Foi durante uma breve conversa com um dos funcionários que a dupla veio a descobrir que o local não era afiliado ao Colégio Arcano ou outra instituição do gênero.

A estrutura era financiada pela própria cidade. Apesar disso, a maioria dos clientes eram estudantes das Artes Arcanas, podia-se notar devido ao uniforme adotado por ela, um robe azul marinho com um castelo bordado com fios prateados na altura do peito.

Dario e Ronan vasculharam as estantes das oito horas até às dez da manhã em busca dos quatro volumes solicitados por Vitória. Faltava pouco para Ronan gritar em frustração, mas Dario parecia prestes a perder a sanidade.

O catálogo que registrava a localização das coleções parecia escrito em outra linguagem. Nenhum dos dois conseguiu decifrar a forma que se ordenava cada obra em cada estante.

Precisavam então apelar às forças desconhecias.

— Com licença. — Dario usou todo seu carisma para abordar duas garotas vestindo aqueles uniformes.

— Pois não? — disse a estudante de olhos verdes com um chapéu azul escuro, pontudo e de aba larga.

— Precisamos de ajuda para encontrar esses livros. — Dario estendeu a lista entregue por Vitória.

Os olhos delas arregalaram ao passarem da segunda linha.

— Entendi — disse a garota do chapéu. — Estes volumes estão na área restrita, talvez por isso tenham dificuldade em achá-los. Aqui eles têm um catálogo separado que fica com os funcionários.  — E devolveu a lista ao garoto. — Vocês tem alguma permissão em mãos?

Os dois se encararam até um lampejo afastar a escuridão envolvendo suas mentes, revelando um detalhe importante.

— Nós estamos ajudando o Victor e a Vitória. Eu trouxe o papel do registro como ela mandou. — Voltou-se para as duas alunas e tirou o papel do bolso da calça. — Será que serve?

Com desconfiança no olhar, a estudante de cabelo negro parecia incerta.

— Talvez sirva. — Franziu o cenho. — Vocês são de fora?

Ronan exaltou-se com a pergunta, estufou o peito e respondeu:

— Somos sim, viemos da capital e…

— E estamos ocupados — interveio Dario. — Não é mesmo? — O encarou e piscou com o olho esquerdo, oculto na visão delas.

— É verdade, precisamos entregar os livros o quanto antes. — Entrou no jogo, mas não sabia o porquê de tudo isso.

— Não tem problema rapazes, nós precisamos ir também, nossa aula já vai começar — ela disse dando uma puxada em seu chapéu, num aceno educado.

— Mas não temos aula durante a ma…

— Nós temos sim senhorita Catarina. — E empurrou a amiga em direção à saída. — Tchau rapazes, foi divertido conhecê-los. — Continuou arrastando a garota que protestava.

— Isso foi esquisito — observou Ronan.

— Esquisito é você dando tanta atenção a duas lindas garotas.

— Por quê?

— Você agora pertence a alguém, jovem aprendiz. Seus dias de galante cavaleiro terminaram.

— Dario… você é qualquer coisa mesmo.

— Vamos — disse após agarrar o casaco do amigo para conduzi-lo até o balcão dos bibliotecários.

De frente a um sujeito calvo de meia idade, Dario explicou a situação ao funcionário. Ele pediu por uma documentação que pudesse provar a necessidade do acesso à área restrita.

Ronan estendeu o papel para ele, que aceitou e os conduziu entre as estantes de madeira escura da biblioteca. Nos fundos, cinco portas permaneciam trancadas.

— Os livros que vocês procuram estão nesta sessão. — Apontou para a porta do meio, que destrancou. O trio adentrou numa sala não maior do que um quarto. Apenas duas estantes de proporções medianas continham dezenas de volumes. — Eu ficarei ali fora esperando vocês terminarem. Por favor, eu os imploro para que não demorem. — Os dois concordaram sacudindo a cabeça.

A porta foi fechada pelo funcionário.

— Bizarro né? — disse Ronan.

— Mas compreensível.

— Pode ficar com a lista, acho que já decorei todos os títulos a essa altura. — Estendeu o papel entregue pela ruiva, ao amigo. — Eu procuro nessa aqui. — Apontou para a estante da direita e começou o processo de busca.

O Mundo Assombrado Pela Manipulação;

As Seis Conjurações;

Admirável Manipulação Velha;

Anatomia Arcana.

Estes foram os quatro livros indicados por Vitória, Ronan repetia os nomes na cabeça a cada volume deixado para trás, precisava ser cuidadoso, não poderia voar com o olhar entre as capas como fazia na Biblioteca Universitária. A pressão imposta pelo funcionário aguardando lá fora o fez tomar ainda mais cautela. Mentalizava os nomes, lia o título e ignorava, foi isso que fez durante os primeiros minutos.

— Achei. Encontrei o: Anatomia Arcana — anunciou um Dario saltitante.

Ótimo, um a menos, pensou Ronan. Voltou à rotina, e…

Admirável Manipulação Velha, encontrada com sucesso.

— Excelente — Dario entusiasmou-se.

O próximo veio aparecer mais de dez minutos depois; e o terceiro, só vinte minutos depois, por culpa de Dario, que deixou: O Mundo Assombrado Pela Manipulação para trás, fazendo com que ambos tivessem de vasculhar desde o começo. O funcionário os assassinou com o olhar, mas não disse nada sobre o assunto.

De volta ao balcão de atendimento, o bibliotecário fez o registro de empréstimo no nome do Sábio, Victor Ambrósio. Ronan e Dario tiveram de assinar um formulário extra para comprovar que vieram retirar os volumes do acervo.

Com os livros em mãos eles se despediram do prestativo trabalhador, que não fez questão de retribuir o gesto e voltou aos seus afazeres. Todos os quatro volumes foram guardados na mochila de Dario, trazida para este propósito.

Eles saíram da biblioteca e desceram o pequeno lance de escadas que separava a construção da rua, no momento apinhada de pedestres.

— Que movimento é esse? — Ronan voltou-se para o amigo.

Mas foi uma voz conhecida que respondeu.

— É o movimento que uma notícia preocupante trás.

Em um pulo os dois viraram-se para trás. O cavaleiro trazia o elmo embaixo do braço, revelando a cabeça raspada e os olhos negros.

— Ian — mas ao dizer o nome do cavaleiro, Ronan lembrou-se do amigo ferreiro. — Está espiando a gente por acaso?

Ele pôs o elmo de volta a sua cabeça.

— De certa forma, estou, mas complementando minha resposta a sua primeira pergunta: desde o decreto oficial de guerra, os moradores fogem de Rioalto como correm de um cão raivoso. Além do mais, o fronte…

— Decreto oficial de guerra? — Dario o cortou expressando toda a surpresa que sentiu ao ouvir o relato. — Desde quando?

— Uma semana, duas, não tenho tanta certeza.

— Viemos para a fronteira quando a guerra foi declarada, genial — suspirou Ronan. — Ao menos somos meros estudantes, alojados numa cabana no meio do nada. Não precisamos nos preocupar tanto assim.

Ian retirou o elmo.

— Eu não cantaria vitória, não ainda. — Os dois o encararam com suspeitas, mas ele continuou: — Que tal almoçarmos? Conheço um ótimo lugar.

Ronan e Dario trocaram sussurros.

— Você paga? — perguntou o segundo.

Atirando um saquinho de moedas para cima, o cavaleiro respondeu:

— Por conta do Mestre Artur.

E sorriu, revelando seus dentes amarelados.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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