Ronan – Capítulo 108 – Rioalto – Parte I


As ruas da cidade de Rioalto serviram de palco para os resmungos de Dario.

— Amanhã nós vamos embora, mas aqui estamos; devolvendo livros e comprando porcarias para aquela megera de cabelo vermelho — terminou chutando uma pedra no seu caminho.

— Megera de cabelos vermelhos? Desde quando você tem essa birra? Jurava que você estava apaixonado por ela, treinando conjuração juntos enquanto eu estava fora — Ronan disse ao ajeitar a mochila com os livros a serem devolvidos.

— Enquanto estava com a Anna você quis dizer, mas sobre a Vitória, foi apenas uma brincadeira, não tenho nada contra ela. É que a minha conjuração não melhorou muita coisa de lá para cá.

— Mas é claro que não, o que você esperava conseguir em tão pouco tempo?

— Qualquer coisa além aumentar o alcance em apenas dez míseros centímetros.

— Ao menos você progrediu; tudo que ela me ensinou sobre rumas eu já sabia.

— Que lhe sirva como revisão, espadachim galante.

— Cala a boca.

— Falando sério, você deveria sorrir um pouco, pode não ser um Príncipe da Tempestade, mas você sabe conjurar alguma coisa pelo menos.

— Esse cara parece um exagero, não é mesmo? Ainda acho que essa história seja inventada.

— Que assim seja meu camarada, pelo bem de Leon na guerra.

Entre risos eles dobraram à esquerda numa esquina e alcançarem a biblioteca da cidade. Sem delongas subiram os lances de escada, entraram e dirigiram-se ao balcão dos funcionários.

— Vocês de novo — anunciou o atendente de meia idade.

— Pela última vez. — Dario retirou os livros guardados na mochila nas costas de Ronan, jogando-os no balcão.

O homem analisou cada um dos volumes devolvidos. Quando terminou, o formulário de devolução foi retirado de um compartimento embaixo da bancada, posto sobre ela e arrastado pelos dedos do funcionário até deixá-lo próximo da dupla.

— É a sua vez Ronan — Dario deu um tapinha nas costas do amigo que ficou de assinar o papel.

Em poucos rabiscos a burocracia ficou em dia. Não querendo perder mais tempo, despedirem-se:

— Até mais — disseram quando o atendente já havia regressado para sua função sem lhes dar mais atenção.

Só quando saíram do prédio foi que Ronan notou a vastidão vazia que se arrastava pela biblioteca.

Entre as dezenas de estantes do único piso, apenas dois estudantes vagavam pelos extensos corredores. E pelo olhar do amigo, ele também percebeu o clima soturno que impregnava além da construção.

— Vamos — Dario anunciou.

Partiram de volta às ruas da cidade. Passaram da saída do prédio, caminharam até a escadaria e desceram o primeiro degrau. Os olhos de ambos se voltaram para trás num piscar de olhos.

— Pego no flagra, meus parabéns — admitiu o cavaleiro batendo palmas. Mas hoje Ian não trajava sua armadura, em vez disso, vestia um gibão de couro marrom com uma calça cinza. Sua cabeça raspada brilhava o sol da manhã um tanto nublada.

— Duas vezes é demais senhor cavaleiro — disse Ronan. — O que você quer dessa vez? E porque não está de armadura? — Notou que ele trazia a espada mesmo assim.

— Hoje é meu dia de folga, quero aproveitar cada instante longe da couraça metálica. — Bateu no peito com o punho fechado. — Mas temo ser o portador de péssimas noticias.

— Você fala como se já nos trouxesse alguma boa — Dario se intrometeu.

— Bem observado, mas gostaria de convidá-los a uma reunião com o Mestre Artur nesta tarde. Pelo que parece ele tem muito que conversar com vocês dois.

— Estamos na merda? — Ronan perguntou exaltando incredulidade

— Não sei. Por hoje eu sou apenas o garoto de recados.

— E se não quisermos comparecer?

— Vocês pretendem desfazer tamanho gesto estendido pelo Mestre?

— Hipoteticamente…

— Então ele ficaria profundamente decepcionado com vocês.

Dario e Ronan se entreolharam e trocaram sussurros inaudíveis na orelha do outro. Quando terminaram, Dario anunciou:

— Guie-nos até o castelo do Mestre Artur.

Curvando-se, Ian compadeceu:

— Com prazer, senhores.

Densas nuvens cinzentas taparam o sol que irradiava minutos atrás.

As ruas até o Colégio o Arcano de Rioalto permaneciam quase desertas não fossem os pelotões de soldados que marchavam de um lado para o outro.

Janelas e portas fechadas indicavam aos três companheiros o prelúdio dos rumores que se alastravam.

— O que houve aqui? — Dario dirigiu-se ao cavaleiro que os acompanhava.

— É a ameaça de guerra meus bons companheiros — o cavaleiro respondeu com a voz cansada. — É isso que reduziu esta outrora movimentada cidade na desolação que enxergamos.

Ronan permaneceu em silêncio, pensando sobre o que o Mestre Artur gostaria tanto de falar com os dois. Imaginou ser algo importante, talvez relacionado às atividades de Victor e Vitória. Anna afinal de contas parecia incomodada com alguma coisa.

Em poucos minutos alcançaram a ponte que os levaria às intermediações do Colégio Arcano. De cima da estrutura, ouvindo o fluir do rio, flagraram diversas figuras adentrando os portões do castelo.

— Pelo que parece o Mestre deve estar se preparando para discursar na escadaria, precisamos nos apressar.

— Mas Por quê? — Dario perguntou

— Vocês logo saberão.

Apressados, os três adentraram no castelo e percorreram o caminho entre as construções erguidas junto à muralha.

Numa curva à esquerda, a poucos metros de onde estavam, reconheceram as figuras que adentraram instantes atrás, pelos uniformes pareciam estudantes do Colégio.

Seguiram em frente e poucos metros depois alcançaram a entrada do prédio.

Pouco mais de uma centena de robes azuis e chapéus pontudos de aba larga se juntavam a duas centenas de trajes de couro, cotas de malha, couraças de aço, capacetes, espadas, lanças, martelos e maças, tudo isso compondo a vastidão que surgiu num lampejo ao virarem a esquina.

Olhos se abriram assim como as bocas dos dois estudantes que acabaram de chegar.

— Na hora — anunciou o cavaleiro sorridente.

No alto da escadaria, de frente à multidão, acompanhado por guerreiros coberto em metal, o Mestre Artur permanecia em pé, orgulhoso e com as mãos para trás, pronto para anunciar algo às centenas de pares de ouvidos ao seu redor. Os olhos daquele senhor cansado encontraram os recém-chegados.

— Capitão Ian, suba aqui — anunciou, atraindo centenas de olhares para os dois rapazes ao lado do cavaleiro.

— Fiquem aqui e não saiam sem permissão — o capitão anunciou ao deixar Ronan e Dario para trás.

O cavaleiro subiu a escadaria e postou-se entre os outros soldados de armadura completa, destacando-se em suas vestes mundanas de couro. Com tantos presentes, o Mestre deu inicio ao discurso.

— Fico feliz em ver que reunimos tantos estudantes e manipuladores das redondezas em tão pouco tempo. Como vocês já devem saber, a guerra foi declarada oficialmente faz poucas semanas e, nos últimos dias, rumores dos mais variados vêm tirando o sono de vocês e dos moradores da região. — Fez uma pausa para juntar as mãos a sua frente. — Infelizmente. É com muito pesar que venho lhes dizer que grande parte é verdade. — Houve silêncio durante o primeiro segundo, e o inferno após o segundo. Conversas agitadas irromperam entre a multidão, muitos insatisfeitos vociferaram contra a figura que lhes deu a notícia. — Silêncio! — bradou o Mestre numa voz destoante das suas feições cansadas.

O silêncio se alastrou como se carregado pelo vento.

Ian deixou a formação dos cavaleiros para ficar ao lado do Mestre Artur. Expirou seu nervosismo para fora, e anunciou:

— Vocês devem estar se perguntando: mas qual dos rumores exatamente o Mestre Artur está se referindo? — Levantou o indicador. — Talvez os piores. Há dois dias ficamos sabendo dos rumores de que o exército inimigo vem marchando do oeste, para cá, para a cidade em que estamos. Mas somente ontem obtivemos os primeiros relatórios oficiais e desde então, não estamos trabalhando com rumores ou suposições, eles estão vindo, de fato e precisamos nos preparar.

— Mas por que estamos aqui? — berrou um dos alunos.

A razão os atingiu como uma martelada na cabeça.

— Porque todos vocês já estão recrutados.

Mais uma vez o inferno se instaurou entre a multidão. Vozes esganiçadas vindas da turba amaldiçoaram aqueles em cima da escadaria. Silhuetas se empurravam enquanto o Mestre tentou mais uma vez conter a confusão.

— Silêncio!

Mas apenas gritar não bastou.

Uma disputa entre praticantes das Artes Arcanas contra soldados armados teve inicio. Os dois lados apenas se empurraram. Em maior número os guerreiros empunhando armas puseram-se em formação, cercando os estudantes no meio da praça.

Não mais de 120 praticantes renderam-se perante as duas centenas de lanças que os cercaram, fora aqueles empunhando espadas, machados e maças.

Atônito, Ronan voltou-se para o amigo.

— É melhor sairmos daqui enquanto dá tempo.

— Vamos — Dario concordou com a mesma expressão no rosto.

Giraram nos calcanhares e dispararam por aonde vieram. Mas quatro cavaleiros os aguardaram a pouco mais de cinco metros, vestindo o mesmo conjunto daqueles em cima da escadaria.

— Por onde pensam que vão? — anunciou o do meio.

— Não somos estudantes ou coisa do tipo, senhor cavaleiro — disse Dario.

— Eu não acredito em você. Nós vimos vocês chegarem com um dos nossos.

— Mas não somos da região, nós viemos da capital, partimos amanhã.

— Não importa. Agora vocês servem aos interesses do Império.

— Mas não somos soldados, apenas jovens estudantes.

— Exatamente — o sujeito disse ao pegar um pergaminho entregue por outro. — Conforme o seguinte decreto vocês farão tudo aquilo que dissermos. — E estendeu o papel amarelado para que os dois pudessem ler as linhas ali escritas:

Em tempos de guerra, todos os cidadãos do império, praticantes ou estudantes das Artes Arcanas, maior de 16 anos, devem servir aos interesses do império.

Pelos poderes a mim investidos, eu outorgo este decreto

Alexandre Griffhart — Imperador de Leon

— Merda! — Ronan praguejou após terminar a leitura.

— Esperamos contar com a colaboração de vocês.

O cavaleiro enrolou o pergaminho de volta.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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