Ronan – Capítulo 112 – Rioalto – Parte V


Parado em frente à escada, Ian aguardou o relutante Ronan descer ao pátio onde sessenta guerreiros se reuniram.

Um estralo longínquo seguido de um zunido agudo fez com que todos ali perto olhassem para o topo da muralha interna. Entre as ameias um projetil surgiu cortando os céus numa velocidade preocupante.

Para sorte dos ali presentes, a rocha disparada pelo trabuco sobrevoou o castelo, caindo longe o bastante para não se preocuparem.

— Deve ter sido disparada por uma das catapultas mais novas — Ian disse em voz alta para que todos ouvissem.

Bufando em frustração, Ronan se aproximou dos demais. Sob a pressão do cerco, os sessenta guerreiros devidamente trajados para a ocasião se reuniram formando um circulo no meio do pátio. Ian, em pé no centro da roda, repassou as instruções para os homens e mulheres ao seu redor.

Espremido pelos soldados que se amontoavam, e irritado com a voz do cavaleiro que aprendeu a detestar, Ronan virou-se para trás, para ver o castelo com a esperança de encontrar Anna o observando da janela.

Infelizmente ninguém surgiu, mas para compensar, uma figura se aproximava pelo caminho próximo à muralha a sua esquerda. Era Dario, conduzido por dois pomposos cavaleiros mal encarados que pararam quando adentraram no pátio.

Dario virou-se para trás, parecia não saber o que fazer, mas as instruções vieram em seguida: um irritado olhar e um empurrão. Bufando sua raiva pra fora, ele caminhou de cabeça baixa até a roda onde Ronan se exprimia.

Ao se encontrarem, se cumprimentaram. Dario explicou que também fora coagido quando Ian leu em sua ficha sobre a afinidade que possuía com a manipulação do ar. Reunidos mais uma vez, eles ouviram as instruções finais vociferadas por Ian.

— Repassando rapidamente para os lerdos que ainda não entenderam. Nós sairemos pelo portão oeste acompanhado de duas balistas e seus operadores. Nossa missão é nos aproximar o bastante para que estas armas possam destruir as catapultas daqueles cagalhões. Lembrando, essa é uma missão onde a discrição é chave. Vários grupos de suporte sairão um pouco antes para distrair os malditos. Por isso precisamos fazer cada minuto valer. Assim que sairmos do alcance da muralha, um segundo destacamento nos seguira para nos dar cobertura caso o inimigo descubra nossa posição, mas eles permanecerão atrás, escondidos, aguardando o devido sinal para avançarem e fornecerem ajuda.

— Não entendi porque uma unidade virá atrás quando eles poderiam nos acompanhar o trajeto todo — resmungou uma ruiva trajada em cota de malha com um elmo em suas mãos.

— Se descobrirem que uma horda se aproxima, eles lançaram uma horda ainda maior para contra-atacar, e então, nunca conseguiremos recuar com tanta gente se atropelando. Com um grupo menor eles revidarão com uma unidade um pouco maior que a nossa, mas darão de cara com uma horda assim que os reforços chegarem enquanto eles ainda marcham.

— Mas porque só duas balistas? — perguntou a mesma ruiva.

— Não queremos perder todas que temos, não é? Eles com certeza devem ter mais trabucos a caminho, vindos do leste. Além do mais, andam desmatando a floresta ao sul e eu duvido que eles pretendam erguer uma pira para dançarem ao redor. Mais alguma pergunta?

Apenas murmúrios esparsos, mas nenhuma dúvida foi direcionada ao capitão, que satisfeito, prosseguiu:

— Partiremos em meia hora, preparam-se e estejam prontos quando a hora chegar, até lá eu peço que não deixem a muralha interna, mas acredito que vocês não sejam idiotas o bastante para se aventurar lá fora. — Deu as costas e partiu rumo ao portão de entrada, acompanhado por três cavaleiros, mais os dois que conduziram Dario até o pátio.

Ninguém deixou as imediações do castelo. O Colégio Arcano, pelo que Ronan percebeu, virou a base de operações para as forças defensivas. Apesar do barulho assustador das rochas que atingiam as muralhas, a situação havia se acalmado. Como se aos poucos cada um fosse aceitando as condições em que se meteram, ou melhor: que foram forçados a se meter.

Tanto Ronan quanto Dario vestiam seus trajes comuns. Precisavam se adequar para a situação. Ambos analisaram os arredores do pátio e viram: mesas, estantes, prateleiras e cabides onde armas, armaduras e trajes eram guarnecidos por intendentes de olhares desconfiados. Os dois se aproximaram do primeiro balcão, onde um intendente guardava os trajes e armamentos mais leves.

— Bruxos? — A alcunha utilizada e a rispidez naquela voz fez os dois se irritarem, especialmente Dario.

— Sim — respondeu Ronan.

O sujeito atirou neles peças de couro e estendeu no balcão peças metálicas, fivelas, cinto, duas couraças finas de aço, dois meio elmos retangulares sem viseira e duas espadas quaisquer que ele encontrou. Ronan vislumbrou a haste de aço enferrujada e o empurrou de forma educada de volta ao intendente.

— Já tenho a minha — disse roçando os dedos no cabo do florete.

— Tanto faz — ele respondeu lhes dando as costas para atender outro soldado.

Como não tinham como carregar tudo de uma vez, os dois decidiram vestir-se ali mesmo, mas quando Ronan despiu o casaco de gola felpuda, Dario interveio:

— Tá maluco, veste o casaco de volta seu doido. Esse troço de couro não vai ajudar quando a noite fria vier foder com a gente.

Ele tinha razão. Apesar do verão, as noites em Rioalto eram gélidas, um grande contraste comparado ao clima abafado dessa estação na capital. Ronan lembrou com clareza das noites compartilhadas com Anna.

O frio era de longe a reclamação número um da garota, fazendo-lhe ceder inúmeras vezes o casaco felpudo que agora vestia.   Com isso em mente, pôs o casaco de volta, jogando por cima a camiseta de couro para acolchoar a couraça que viria depois.

Pessoalmente ambos prefeririam uma cota de malha por baixo, mas ela não impediria um ataque perfurante, entretanto, as peças metálicas não fechariam as brechas nas articulações, cada escolha uma perda.

Dario virou-se para o amigo.

— Ronan, você é um guerreiro com uma arma rúnica, você poderia vestir uma armadura completa. — E sem autorização, dirigiu-se para o intendente que terminou de atender o soldado. — Senhor intendente. Meu amigo é um criador de runas, ele pode usar uma cota de malha e uma armadura mais robusta?

— Criador de que? Do que você tá falando?

— Digamos que é a espada dele que faz magia, ele não vai precisar de tanta mobilidade.

— Hein?

— Ele é tipo… tipo o capitão Ian, sabe? Ele tem uma espada cheia de marcas… — Ronan entendeu a deixa e desembainhou a lâmina, mostrando ao intendente a runa de absorção e bloqueio.

Ao ver a espada com a lâmina marcada, ele em fim entendeu o que Dario queria dizer.

— Poderia ter me dito antes que ele tinha uma dessas armas esquisitas. Então você é um caçador de bruxo, fico feliz em saber que temos mais um desses. Pode ficar a vontade e pegar o que quiser. Desde que só você utilize, é claro. — Abriu a portinhola no canto da bancada para que Ronan adentrasse.

Do outro lado, Dario tecia seus comentários.

— Poderíamos falar com um dos intendentes responsáveis pelo armamento pesado, eles têm cada armadura incrível.

— Não precisa, aqui tem o bastante para mim. Além do mais, aquelas armaduras pesam demais e acredito que apenas os oficiais podem utilizá-las.

— Meu amigo, se você disser que é um “caçador de bruxo” é capaz de eles darem as próprias calças para você.

Quando vestiu a cota de malha, Ronan sentiu o peso dos inúmeros anéis metálicos pressionarem o couro da vestimenta. O peso limitaria sua movimentação, mas lhe trariam uma proteção robusta, necessária caso entrasse em luta corporal.

Assim optou pelo equilíbrio entre peso e mobilidade, escolhendo peças que lhe cobririam o máximo possível com exceção das articulações. A cota apararia os cortes das lâminas afiadas e as placas de aço, o impacto dos porretes e as perfurações de lanças.

— Você parece um cavaleiro de verdade, vai querer um elmo fechado? — Dario sugeriu com um capacete cilíndrico, cuja abertura para os olhos se resumia a alguns filetes retangulares.

— Agradeço a preocupação, mas prefiro não limitar a visão, principalmente, a movimentação da cabeça — respondeu sacudindo a mesma, mostrando como o meio elmo não lhe atrapalhava tanto.

— Uma pena. — Dario expressou sua insatisfação. — Você poderia vestir uma daquelas armaduras tranquilamente — disse apontando o indicador para uma espessa armadura completa, encaixada em um boneco perto de outro balcão, do outro lado do pátio.

— Olha… Eu não me considero fraco, mas para trajar esse monstro vocês teriam de me carregar numa carroça.

Ambos riram por um instante. Ronan, de forma solicita se dispôs a ajudar o amigo a trajar sua armadura, mas Dario recusou, disse não ser necessário, pois seu traje de guerra não passava de uma camiseta de couro, uma chapa de aço e algumas peças para os braços e pernas.

Vestidos para a guerra eles se sentaram na escadaria do castelo e aguardaram o resto da companhia se aprontar como eles.


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Autor: Raphael Fiamoncini



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