VM – Capítulo 157 – Quase um Chicago boy.


— Faca, faca de backup, kit de amolar, kit de fogo, kit médico… — Tyler começou a enumerar em uma folha de papel vários itens que ele usaria na sua expedição até a floresta celestial.

— Para onde nós vamos? — Nº1 perguntou.

— Nós não, dessa vez você fica. — Ele respondeu.

— Mas mestre, eu devo segui-lo em todos os lugares! — A menina protestou.

— Desta vez não, posso passar meses em uma selva cheia de feras perigosas, não é um lugar no qual eu deva levar uma garota como você. — Tyler falou, Narja estava perto de completar 15 anos, e só agora começava a se parecer com uma jovem da sua idade. Talvez fosse pela falta de nutrientes durante a infância, antes ela parecia ter uma idade bem abaixo do que realmente tinha, contudo nesse quase um ano de convivência a menina cresceu de todas as formas, era quase como se o tempo passasse mais rápido para ela.

— Mestre! — Nº1 suplicou com olhos cheios. — Eu não vou atrapalhar, eu juro.

Tyler tinha que concordar, fora o problema constante de anemia e sua pele sensível, ele nunca teve problemas com ela. Na verdade ela tinha uma disposição fora de série para acompanhar a rotina de Tyler.

— Eu não sei… — Tyler balançou a cabeça pesando os prós e contras.

— Mestre, por favor, por favor. — Ela juntou as mãos suplicando.

— Ok, mas você tem que ficar ao meu lado sempre, e ouvir cada ordem que dou. — Tyler finalmente cedeu, mas essas últimas palavras foram apenas uma retórica sem sentido, afinal Narja nunca tinha lhe desobedecido. Na verdade ela só tinha lhe dado orgulho e satisfação, ele não sabia se ficava feliz ou triste em tê-la junto, ela era sem dúvidas um prodígio acadêmico.

Não bastava o quanto Tyler lhe ensinava, a menina era como uma esponja que sugava tudo que tinha. Com toda certeza se ela tivesse nascido na Terra, ela seria uma cientista ganhadora de Nobels! Talvez nesse mundo ela não poderia exercer todo o seu potencial, mas certamente seria alguém que faria a diferença.

— Eba! — Narja o abraçou em um dos raros momentos que ela expressava abertamente suas emoções.

***

Após deixar a menina fazer sua mala, Tyler foi até a sede da prefeitura, no começo seria apenas uma prefeitura comum que cuidava da capital e alguns poucos assuntos do Império, a capital era como uma incubadora que servia de treinamento para os novos gestores. Durante todo o período em que esteve aqui ele trabalhou duro para alicerçar os fundamentos e princípios de uma gestão pública moderna, foi muito difícil para as antigas pessoas que cuidavam desses assuntos lidarem com mudanças tão repentinas.

A primeira grande mudança foi a criação de setores e departamentos dentro da prefeitura, pode parecer uma coisa bem simples, mas só de saber quem é que responde pelo quê, já faz muita coisa andar.

Um das primeiras grandes tarefas foi enviar corretamente sementes selecionadas para todos as cidades do Império. Os cereais mais comuns da alimentação nesse período eram o trigo e em alguns poucos lugares a aveia, Tyler mandou sementes de alta produtividade de arroz, trigo, soja, milho e feijão.

Também havia uma cartilha ilustrada que servia como manual de instrução para o plantio. Fora essas que serviam como base da alimentação, Tyler foi cuidadoso em separar frutas e legumes fáceis de plantar e com alto rendimento. Abóbora, melão, melancia, tomate, mamão, cenoura, batata, beterraba, repolho e espinafre, eram plantas de rápido crescimento e grande rentabilidade.

Se tudo corresse bem e se as pessoas plantassem corretamente, não haveria falta de alimento e nem vitaminas.

Outros dois cultivos muito importantes eram a cana-de-açúcar e o girassol. Como todo combustível que Tyler tinha trazido uma hora acabaria, ele rapidamente fez grandes plantações dos mesmos.

A cana-de-açúcar levaria em média 1 ano para colher e o girassol 4 a 5 meses, desses o girassol era de maior importância no momento pois poderia substituir o diesel sem precisar de nenhuma alteração nos motores. De certa forma todo o desenvolvimento do Império estaria ligado a produção do biodiesel, pois os tratores e caminhões eram as mulas de carga da construção.

O gás metano dos banheiros públicos eram coletados para alguns geradores e carros adaptados, mas no futuro alimentaria as caldeiras e fornalhas das indústrias.

— Bom dia, majestade. — Wez recebeu Tyler.

Wez tinha sido um sábio de grande influência na casa dos sábios, ele trabalhou por muitos anos na administração do rei Otaviano, mas tinha se aposentado, quando ele soube de todas as novidades que Tyler estava trazendo, não se aguentou de curiosidade e veio participar.

Devido a sua experiência ele logo se tornou o braço direito dentro da prefeitura.

— Bom dia. — Tyler respondeu.

— Os relatórios das construções e da produção de madeira estão prontos. — Wez entregou alguns papéis, eles ainda eram escritos à mão, já que ninguém ainda sabia mexer em um computador.

— Certo eu vou dar uma olhada, quais são as novidades para o leilão de concessões? — Ele quis saber antes de checar os relatórios.

— Já fizemos a lista, estamos escrevendo os convites antes de enviá-los.

Nos primeiros momentos, a nova capital não era nada mais que um buraco negro de dinheiro, Tyler ainda tinha muito mercadoria para vender, mas a maior parte dela não tinha comprador. Era algo chato, pois muitas coisas precisavam de um certo conhecimento para operar, logo quando chegou ele começou a construir como um louco, e literalmente fez brotar uma cidade inteira do nada. Ruas, casas, galpões e fábricas. Foi bastante complicado construir uma cidade planejada, mesmo uma pessoa moderna sem experiência faria uma casa melhor que um pedreiro dessa época, e a resposta era bem simples, eles não tinham ideia de como uma casa deveria ser.

Não era só 4 paredes e 1 teto, havia o encanamento da água, as tomadas, o encanamento para a fossa e etc. tudo isso só se multiplicava com uma cidade inteira. No começo eles demoravam muito e até desperdiçaram materiais, para contornar o déficit público, Tyler começou a vender a madeira serrada que extraía perto da jazida de granito.

Foi um negócio que se tornou lucrativo já no primeiro dia, as tábuas que para uma pessoa normal seriam ditas como rústicas, aqui eram o ápice da qualidade! Depois de cortadas elas simplesmente eram mandadas rio abaixo, não só para o interior do próprio Império, mas até os Reinos Oeste e Central eram clientes fervorosos.

Apesar das desavenças que causaram quase uma guerra, muitos nobres ousavam comprar madeira do Império pois a madeira cortada uniformemente, era perfeita para construção de barcos. Grande parte das receitas do Reino Central vinha do seu comércio com as linhas distantes e com os elfos no além-mar.

Depois de examinar os relatórios, Tyler prestou atenção no seu outro grande passo. O leilão de concessão!

Tyler simplesmente juntaria todos os nobres e comerciantes em um local só, e leiloaria know-how. Mas o que era isso? Bem, era apenas conhecimento específico.

Em primeiro lugar, ele anunciaria e explicaria tal produto e venderia todo o conhecimento — às vezes até maquinários. — para quem pagasse mais. Por exemplo: uma fábrica de cimento.

Tyler mostraria o cimento, como usá-lo e para que servia. Depois, quem estivesse interessado compraria os direitos de produção.

Essa era a beleza do capitalismo, ao mesmo tempo que geraria uma enorme renda para os cofres públicos, ele tiraria o peso da produção das costas do estado, além de promover a competição entre os produtores.

Haveria quase 50 tipos de concessões diferentes com cada uma delas tendo cotas variadas. Ele não estava preocupado em enriquecer os nobres, afinal haveria espaço para todos os “bolsos”.

Uma concessão para plantar cacau ou seringueira não seria tão cara quanto a de uma fábrica de motores a vapor.

Tyler teve que admitir que sentiu seu ego inflar um pouco com essa sacada de mestre, até seus amigos economistas teriam que reconhecer a sagacidade do plano. A riqueza praticamente brotaria como capim, ele não queria milhões de moedas paradas nos cofres do governo, se tudo desse certo seriam milhões de moedas circulando nas mãos da população.

— Capitalismo… Doce capitalismo… Liberalismo… Doce liberalismo… — Tyler suspirou antes de voltar ao trabalho, ele tinha pouco tempo para deixar as coisas em ordem antes de sair em sua expedição pessoal.


Autor: Lion | Editor: Bczeulli | QC: Delongas



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