TER – Capítulo 148 – Desarmando armadilhas


— Acabei de lembrar. Pensei que o Mestre se recusaria.

“Recusar o quê?”

— Promoção para rank C, porque iria me destacar.

“Bem, acho que você está certa, mas imaginei que já não fazia muito sentido ser contra isso. Quer dizer, você quer participar do torneio de artes marciais, não quer?”

— Nn.

“Pois é. Participar já vai fazer você se destacar muito.”

— Verdade. Vou me destacar se conquistar a vitória.

“Haha. Sim, basicamente é isso.”

— Nn.

Descemos as escadas do calabouço enquanto conversávamos. Naturalmente, não diminuímos nossa atenção enquanto fazíamos isso.

Não levou muito tempo para chegarmos na entrada do primeiro andar, uma passagem longa e estreita construída toda de pedra. Ela era muito pequena e estreita para Urushi, então ele não teve escolha além de voltar para seu tamanho menor.

— Urushi. Treinar para lutar quando pequeno.

— Au.

Nós não precisamos acender qualquer tocha ou usar algum tipo de fonte de luz. Musgo luminescente crescia no teto da caverna e fornecia um brilho fraco à passagem. Ele não iluminava todos os cantos, porém, ainda era bom o bastante para nossos propósitos.

“Parece que já encontramos uma encruzilhada, e uma que diverge em três caminhos diferentes.”

— Seguir qual?

“Hmmm, bom, a regra diz que você deve sempre seguir para a esquerda.”

A regra a qual eu estava me referindo era a famosa regra da mão esquerda1. Ela dizia que você seria capaz de encontrar um caminho para quase qualquer labirinto contanto que você colocasse sua mão esquerda na parede e sempre se virasse para a esquerda. Quer dizer, isso tecnicamente funcionava com sua mão direita também, mas, tanto faz.

Naturalmente, a regra da mão esquerda não era perfeita e não se aplicava para todas as situações. Por exemplo, isso não funcionaria se o lugar que estivéssemos tentando chegar exigisse que atravessássemos uma sala secreta. Essa técnica também falhava quando o local que você estava tentando chegar era o centro, ao invés da saída, quando não havia nenhuma parede e quando era necessário subir e descer escadas e algo envolvendo um espaço tridimensional.

Ó, e só para acrescentar, nós investigamos tudo para conseguirmos completar nossos pedidos relacionados a exterminar feras demoníacas com sucesso, mas não gastamos muito tempo examinando o layout do calabouço, nem procuramos por informação pertinente a armadilhas em seu interior. Nós imaginamos que esse tipo de informação não iria nos ajudar muito, considerando como estávamos tentando praticar nossa arte de detecção. O plano era que localizássemos armadilhas e feras demoníacas por conta própria, sem contar com nenhuma ajuda externa.

— Então vou escolher a esquerda.

Acho que isso serve. Não estou sentindo nenhuma armadilha ou fera demoníaca de qualquer um dos três caminhos no momento.

“Certo, vamos nessa.”

— Nn.

Ativamos nossas habilidades de detecção e começamos a seguir o caminho mais à esquerda.

— Mmph.

“Ó?”

Fran e eu simultaneamente detectamos algo cerca de três minutos após começarmos a nos mover.

— Detectado.

“Então você conseguiu detectá-lo também Fran? Me parece ser uma Serpente das Sombras.”

— Bem ali.

Uma única serpente negra estava escondida em um canto escuro em que o a luz do musgo luminescente falhava em alcançar. Era bastante difícil de notar, e quase parecia que ela estava se mesclando com as sombras. Seu nome me fazia pensar se ela não poderia usar magia negra, mas ela não podia. O nome se referia a forma como o mostro deslizava ao redor da escuridão.

— Fracote.

— Au.

“Pois é. Mas esse foi o primeiro monstro que encontramos.”

Ela tinha quase o mesmo tamanho de uma cobra-rateira japonesa2, e quase não tinha nenhuma destreza ofensiva. Ignorando as habilidades Cobertura das Sombras e Detecção de Presença, ela era apenas uma serpente comum. Sendo sincero, ela nunca seria capaz de te causar dano contanto que você calçasse um par de botas.

Para ser franco, essa era uma fera demoníaca que um aventureiro mediano nem se incomodaria em caçar. Seu sabor era como lixo, sua pedra mágica desprezível e ela não dava qualquer XP. Para piorar as coisas, você também teria que examinar seu cadáver e extrair sua pedra mágica, um procedimento que tomava muito tempo para uma recompensa insignificante. Mesmo assim, não éramos aventureiros comuns. Não vi motivos para desperdiçar uma oportunidade de potencialmente aumentar o level de uma habilidade enquanto também adquiria pontos de pedra mágica grátis.

E assim, Fran assassinou a Serpente das Sombras. Ela acabou me dando apenas um único ponto de pedra mágica, mas, ei, um passo de cada vez, não é?

“Muito bem, vamos continuar.”

— Nn.


O tempo passou enquanto avançávamos.

Fran congelou por completo após avançarmos um pouco mais fundo dentro do calabouço.

“Qual o problema?”

— Armadilha?

“Sério? Onde?”

— Piso. Ali.

“Óóóóó. Agora estou vendo.”

Olhar para o lugar que Fran apontou me fez sentir um pouco de desconforto, como se algo muito pequeno estivesse fora de lugar. Ativando a Detecção de Armadilha e encarando a área com olhos mais atentos, eu entendi que a armadilha que estava vendo era uma que se ativaria em resposta ao peso. Para ser mais específico, ativá-la iria causar o disparo de uma flecha.

Fran parecia ter notado a armadilha antes de mim como resultado da habilidade Sentido da Sola, uma habilidade que a permitia detectar singularidades com as solas de seus pés. Isso era mesmo útil, considerando que Fran podia sentir as vibrações que ela produzia enquanto caminhava, assim a permitindo adquirir muita informação.

Essa era uma habilidade que eu não poderia utilizar, a menos que fosse arrastado pelo chão ou pelas paredes, mas isso criaria muito mais barulho do que o necessário, portanto, pode esquecer.

“Você quer tentar desarma-la?”

— Nn.

Desarmar armadilhas era basicamente minha especialidade devido a meu acesso a telecinésia. Eu podia me livrar de seus mecanismos sem muito esforço, e se eu cometesse algum erro, eu podia apenas ativa-las de longe sem nos colocar em qualquer risco. Mesmo assim, pensamos que seria uma boa ideia para Fran se acostumar a fazer isso por conta própria.

“Boa sorte.”

— Nn.

Fran pegou o conjunto de ferramentas que conseguimos na Guilda dos Aventureiros. Em seu interior, ela encontrou um par de pinças e uma lâmina fina. Ambos os itens eram considerados necessidades para aventureiros com classes do tipo batedor.

A caixa de ferramentas também incluía instruções de como você poderia desarmar armadilhas, e relatava vários princípios diferentes. O método que Fran estava tentando agora era especificamente um que deixava a armadilha inofensiva ao invés de apenas oblitera-la. Ou seja, ela descobriria como a armadilha funcionava antes de destruir os mecânicos principais que a tornavam operacional, ao contrário de apenas bagunçar todos os mecanismos.

A armadilha que nós dois estávamos olhando no momento se ativava com um gatilho de peso. Ou seja, aplicar peso na área em que ela estava iria abaixar seu mecanismo, deste modo puxando um fio que, por sua vez, iria lançar uma flecha de um buraco na parede a nossa esquerda. Pelo que eu podia dizer, havia duas formas de desarmar a armadilha. A primeira era tampar o buraco, e a segunda era cortar o fio com cuidado.

Fran decidiu escolher a última das duas opções, e enfiou a lâmina que pegou da caixa de ferramentas dentro de um pequeno espaço no chão que estava entre o ladrilho de ativação e o resto da caverna.

Ainda estávamos apenas no primeiro andar, então a armadilha era bastante simples e não foi preciso muito esforço para desarma-la. A flecha estava posicionada de forma a atingir a pessoa que estava de pé no ponto de ativação, então nós poderíamos apenas nos abaixar e fazer Fran pressionar o ladrilho para desarmar a armadilha ativando-a se estivéssemos com preguiça.

Na verdade, nem mesmo precisávamos desarma-la. Podíamos apenas evitar o ladrilho de ativação e estaria tudo certo, mas decidimos seguir com esse procedimento porque imaginamos que essa fosse uma boa oportunidade para Fran praticar um pouco.

— … feito.

“Hã-hã, parece que você conseguiu.”

— Au!

O calabouço tinha a capacidade de se consertar, então a armadilha acabaria sendo rearmada em algumas horas. Em outras palavras, não conseguiríamos nos aproveitar da ação de outros aventureiros. Todas as armadilhas que eles desarmaram iriam voltar ao normal no momento em que as alcançássemos.

— Vamos procurar pela próxima armadilha.

Ao que parecia, Fran se divertiu desarmando a armadilha. Ela estava examinando a área por mais com uma expressão entretida em seu rosto.

“Er, claro. Mas acho que devemos descer um pouco mais se quisermos encontrar outra.”

Por que eu sinto que ela pode acabar escolhendo um emprego relacionado a batedor em sua próxima mudança de classe? Porcaria, e se ela realmente fazer isso e parar de querer ser uma espadachim?

— Armadilha encontrada. Quero desarmar. Tudo bem?

“Cla-claro, vá em frente.”

Tudo vai terminar bem, não vai?

“Desarmar armadilhas é mesmo tão divertido?”

— Nn!

Os olhos de Fran brilharam enquanto ela se aproximava de um buraco na parede. A forma como ela ficou parada na frente da armadilha com seus braços cruzados e sua expressão toda séria quase fazia parecer que ela estava liberando uma aura de perita em armadilhas.

Ela está tão interessada porque achou armadilhas parecidas com quebra-cabeças?

“Acho que devemos continuar vigiando nossos arredores…”

— Au…


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Notas

[1] O wall follower (literalmente “seguidor de parede”) é a regra mais conhecida para se atravessar labirintos, também é conhecida tanto como “regra da mão esquerda” ou “regra da mão direita”. Se o labirinto é conectado de forma simples, ou seja, todas as suas paredes são conectadas umas com as outras ou com o limite exterior do labirinto, ao manter uma mão em contato com uma parede do labirinto, o solucionador tem a garantia de não se perder e irá chegar a uma saída diferente, se existir uma; por outro lado, o algoritmo vai o devolver para a entrada após fazê-lo atravessar cada corredor que se conecta com a seção das paredes pelo menos uma vez.

[2] A cobra-rateira japonesa (Elaphe climacophora) é uma serpente de tamanho mediano encontrada pelo arquipélago japonês (exceto no extremo Sudoeste). Em japonês, ela é conhecida como aodaishō, ou “general azul”. É uma serpente não-venenosa e uma integrante da família colubrid. Ela é caçada por águias e cães-guaxinim (também conhecidos como tanuki).



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